domingo, 22 de junho de 1997

ENCANTO ASSUSTADOR EM SEVERINO FILGUEIRA

Um poeta difícil. Ou, noutras palavras, destinado a romper com o convencional. Capaz de dissonâncias como as inventadas por Rimbaud.
Neste início do século XXI, onde praticamente tudo se tornou possível, e até o medíocre assumiu tronos de perpetuidade, Severino Filgueira parece estar dando continuidade a uma poesia de encanto assustador. Ele é capaz de imagens comparáveis a “coches cruzam o céu; há um salão na profundeza de um lago.”
Transponho-me para o seu tear poético, ao reler de Hugo Friedrich, sobre o que chama fantasia ditatorial, referindo-se à poética do autor de Illuminations: A fantasia ditatorial não procede observando e descrevendo, mas sim com uma liberdade ilimitadamente criativa. O mundo real se rompe sob a imposição de um sujeito que não quer receber seus conteúdos mas, sim, quer impor sua criação.”
Na medida alta de seu poder inventivo, talvez se encontre a explicação para o silêncio e a solidão a que se entregou o poeta Severino Filgueira, pela provável convicção de pouco ou nada ter a falar aos que lá fora se elogiam, se bastam e glorificam.
Dizer mais da poesia de Filgueira é ofício da crítica de carreira, dos teóricos e detentores de estrovengal ontológico, a capacitá-los na difícil tarefa. Como se verá, minha finalidade aqui é outra.
Excepcionais da legítima beleza, como Filgueira, necessitam de ser lembrados ou descobertos por seus contemporâneos, sob pena de gerações epígonas os encontrarem por acaso, passando a acusar seus vizinhos de tempo de insensíveis, cegos ou incompetentes.
Amigo e admirador do poeta, há mais de 30 anos, sei de sua despreocupação e alheamento quanto às glórias da terra. Severino é daqueles que escrevem com muito rigor – só isso. Com esse comportamento, pode se incluir na observação de Pound, contida em seu ABC da Literatura: “Há uma qualidade que une todos os grandes escritores: escolas e colégios são dispensáveis para que eles permaneçam vivos para sempre. Tirem-nos do currículo, lancem-nos à poeira das bibliotecas, não importa. Chegará um dia em que um leitor casual, não subvencionado nem corrompido, os desenterrará e os trará de novo à tona, sem pedir favores a ninguém.”
Conquanto tenha o peso da verdade a lição do criador de Os Cantos, e similitude com a trajetória silenciosa de Filgueira, Ezra Pound se refere a autores já publicados em livro. Severino, atualmente com mais de 60 anos, embora tenha dedicado a vida ao exercício da poesia, poucas vezes desfrutou da alegria de vê-la mover-se fora do limbo.
Através da Editora Pirata, e por ação dos escritores Jaci Bezerra e Alberto Cunha Melo, publicou em 1979 um livro fininho a que chamou Iniciação à Fábula. Antes, e não mais que isso, teve seu nome incluído numa antologia – Quíntuplo – com uma série de 20 poemas, batizados pelo título Aposentos do Sonho.
Por isso é preciso, já, retirar-se da indigência a grande quantidade de originais da estranha e fecunda poesia produzida por este poeta, que optou por consumir discretamente sua atribulada existência, sem nada pedir. Repito: é preciso publicá-lo em livro, antes de arrebatá-lo a evanescência.
Não é justo que o deixemos, todos, continuar confessando à própria sombra: “Não sei onde vá encontrar a fé / e a idéia da beleza./ Aí está toda minha vida,/ povo do povo, ao acaso do dia./ Nada sei do ofício das palavras/ nem tampouco do povo/ e o povo de mim./ Todos os poetas dormem/ mas ainda estou falando e ouvindo/ meu próprio coração/ no universo. Custa a vir/a aurora. Penso/ em andar ao sol ainda/ hoje.”
Misto de vagabundo e maldito, de quem conheço histórias cômicas e melancólicas, o caminho do seu endereço tem início nos bairros do Recife, por onde caminha a esmo, todos os dias.
Os mais próximos de sua amizade, sabem aonde encontrá-lo e a poesia por ele acumulada. Poesia de profundidades, a beirar o enigmático, só comparável à realizada pelos fincadores do divisor de águas, entre a moderna lírica e a tradição. O que escreveram estes feiticeiros da palavra corresponde ao inventário revisitado por Severino Filgueira, poeta (quase) sem seguidores. Analisar sua poesia impõe a responsáveis pela missão, instrumental ousado e domínio do tema “desumanização da arte”, fonte e equilíbrio de toda a arte moderna.Enquanto nada se diz ou faz pela instigante e esquecida obra deste artista, ele consegue – sonhador e indiferente – “Andar no domingo à noite sem saber,/ erguendo os sentidos ardentes dos vazios/ em edições, de degraus sujos de virtude,/ às vezes causa de amontoado de palavras/ que, repetidas, arrastariam as patas sem atingir/ o mínimo de areia inconstante do mar.”


Publicado no Jornal do Commercio em 22 de junho de 1997.