quinta-feira, 3 de julho de 2008

AMAZÔNIA CONDENADA

Enquanto crescem relatórios e discursos favoráveis ao “progresso sustentável”, “agronegócio” e outros jargões de mentirosa caridade, a Floresta Amazônica desaba. Desaba sobre fogueiras, e vítima da fúria do lucro perpetrado pelos nominados donos de partes dessa área verde de imensa extensão. Eles estão sempre munidos de papéis incapazes de lhes dar posse e domínio, na forma das leis (abundantes e inócuas) do País.
Por isso, cada brasileiro não deve continuar inerte perante a agressão desses retardatários colonizadores, nacionais e estrangeiros, impunes na Amazônia a cobaiar pessoas, animais e a mãe natureza, através de experimentos e devastações contínuas. E tudo com a desfaçatez de que suas manobras estão de acordo com os propalados Indicadores do Desenvolvimento Sustentável – IDS.
Nesta hora de horror, os diversos segmentos da sociedade não podem se amedrontar com o covarde gesto dirigido para Chico Mendes e a freira Dorothy Stang, silenciados pela morte por defenderem o respeito à natureza.
Assim, conclamamos a todos, e aos escritores especificamente, para um posicionamento firme e continuado ante estes atos predatórios contra a flora. Ocasião adequada para a abordagem do assunto, de forma corajosa e imparcial, seria nas duas festas literárias – Flip e Fliporto, marcadas para breve.
Acrescentamos: o porvir nos observa neste momento histórico de reverberação medonha. Não deixemos que digam de nós, um dia, apenas portadores de “interesses corporativos”, isso mesmo, interesses agremiados e pessoais.
A dor da Floresta Amazônica tem de ser a nossa própria dor. Sob pena de a sua eliminação com fins mercantis, insustentáveis e de regras pouco claras, nos alcançar já, como devastados meio diferentes – posto que caminhamos, pensamos, escrevemos... Precisamos compartilhar com a luta em favor da Amazônia e da vida em geral, evitando a perplexidade de gerações posteriores, pela nossa omissão deliberada no presente.
A propósito dessa conclamação, um registro: através de terremotos, furacões, incêndios e outros gritos, a terra vem se defendendo, pela falta de real apoio das multidões planetárias. Isto se lê, página a página, no livro A Vingança de Gaia, obra séria e de muito valor científico, publicada há pouco tempo.
Afinal, o apelo contido neste texto pode estar desesperançado e reprimido no sentimento de vizinhos, de ruas cheias, da nação. Ou previsto na extensão metafórica e transcendente do poeta maior Augusto dos Anjos, em sua visão de triste futuro. O autor vaticina em seu único livro, EU, o desrespeito às árvores, neste poema de toda a vida, escrito há quase século: “- As árvores, meu filho, não têm alma! / E esta árvore me serve de empecilho... / É preciso cortá-la, pois, meu filho, / Para que eu tenha uma velhice calma! / - Meu pai, por que sua ira não se acalma?! / Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! / Deus pôs alma nos cedros... no junquilho... / Esta árvore, meu pai, possui minha alma!.../ - Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa: / “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!” / E quando a árvore, olhando a pátria serra, / Caiu aos golpes do machado bronco, / O moço triste se abraçou com o tronco / E nunca mais se levantou da terra.”
Comovente. Por tudo isso, caros escritores, não deixemos que tais desígnios se instaurem de vez contra a natureza e populações inteiras de brasileiros. Nossa arma é das mais eficientes – a palavra, a palavra escrita. Somemos, pois, nossa viva e pulsante ação à de muitos ambientalistas, competentes e verdadeiros, que têm lutado sozinhos e de forma irressonante, em favor da vida nas folhas, verdes. À nossa corrente, acreditamos, outras se unirão pela sobrevivência da maior floresta tropical do planeta – a Amazônia condenada.


Publicado no Diário de Pernambuco em 03/07/2008.