Ouvir a música de compositores quase esquecidos, mas talentosos, representou a meta de Nara Leão, a partir de 1964. No “asfalto”, a histórica bossa nova, com alguns ícones, já havia se firmado. Nara, dizem as pesquisas, era a musa desses jovens letristas e músicos de expressão.
Num completo mergulho pessoal, ela ausentou-se das elites cariocas - Copacabana, Urca, Leblon, e foi ao morro, habitação da verdadeira MPB, cantada por homens e mulheres divertidos e também marcados de incontáveis necessidades - uma chaga secular.
Aí se deu o deslumbramento. Nara ouviu e gravou, por exemplo, “Podem me prender/ Podem me bater/ Podem até deixar-me sem comer/ Que eu não mudo de opinião.” [...] Com letra e música de Zé Kéti, “Opinião” é o título desta canção de protesto, disfarçada em ambigüidades e dissimulação, utilizadas contra a censura e perseguição vividas na época. “A voz do Morro” é outro sucesso de Zé Kéti, interpretado por diversas vozes da fama, entre elas a de Elis Regina, insubstituível no que viveu e pôde cantar. Penso então: não se ouviu mesmo a palavra, nas canções desses artistas, num tempo rebelde e brutal.
De lá até hoje, as diversas lições não serviram para dar vez ao lamento coletivo. E o Estado nacional constituído vem perdendo força e controle institucionais, ante um estado violento e à margem, comandado, talvez, pelos filhos, netos e bisnetos dos músicos-poetas de um dia. Eles advertiam e cantavam suas dores, apontando nelas os perigos ainda invisíveis ao olhar de tantos. Sociólogos, pedagogos, antropólogos e geógrafos sérios (Josué de Castro, Manoel Correia de Andrade, Paulo Freire, além de outros) também escreveram sobre tudo isso. Os artistas de todos os matizes, atuais e de tempos já idos, fizeram o mesmo. Dementadas, no entanto, as elites não quiseram ouvi-los, e talvez agora se arrependam, pela pressão e temor abissais vividos por toda a sociedade.
A vergonha do irretocável quadro está mostrada nos jornais de todo dia, onde as verbas destinadas às melhorias sociais, são tantas vezes descaminhadas por representantes do povo – os mandarins de sempre – que têm o comando nacional da “Tripartição dos Poderes do Estado”, como pensada por Montesquieu, na obra “O Espírito das Leis”, cuja fonte primeira remonta às inquietações filosóficas de Aristóteles.
E enquanto decai em esperanças o fôlego de cada brasileiro, pela má reputação de muitos dos que decidem pelos três poderes republicanos, Nara continua cantando, agora bem perto de Deus, feito outros, seus iguais: “Quando derem vez ao morro / Toda cidade vai cantar”.
Perante o medonho de tudo isso, também registro em versos, buscados no livro Ardentias, a síntese do pouco riso e solidão, experimentados por todos neste momento de perplexidade nacional: “Os dias que correm nada sabem / De um Condado em folguedo. / Consomem seu destino / Nos sacudindo à dor e a ermos / De nenhum – ou escasso - / Fado. / Neles, / A casa se perdeu / Ao troar de morteiros. / E move-nos ler de suicidas: / - Na rua está o céu, pelo menos, / À mira do qual nos guardamos / Vivos, / Ou morremos”. Mas eu falava de Nara Leão, com seu recato semelhante ao de poentes na neve. Canta Nara, aos olhos do bom e quântico Deus. Conta-lhe das matas e desertos de Chico Mendes, o trucidado; conta-lhe de nós, racionais. E das farras contra o boi...
Publicado no Jornal do Commercio em 25 de junho de 2009.
quinta-feira, 25 de junho de 2009
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