terça-feira, 11 de fevereiro de 2003

DE UMA ÁRVORE

Concisão é uma das características da poesia de Fabrício Carpi Nejar, natural de Caxias do Sul (RS) e colaborador assíduo do jornal literário Rascunho, produzido em Santa Catarina. Pensei assim já ao ler dele o livro Terceira Sede e recentemente a Biografia de Uma Árvore, sobre o qual ora me reporto.
Todo o livro dá a impressão de se estar ante à plástica do belo. O novo é tanto que versos isolados do poema onde habitam, irradiam sozinhos, num pacto obsessivo com o estranhamento ou “ordem sacrificada”.
Os sinais de um canto “no limite do impossível” podem ser conferidos nestes versos, entre muitos de mesma força e singularidade no livro:

A culpa fermenta a salvação.
O joio sabe mais do trigo que o pão.
...
Vivo do passado
como quem amou o suficiente.
Adiantei-me de amores
e depois fiquei a esperá-los
sem ter o que fazer.
...
Assisti à covardia crescer, aquietado no fundo da sala.
Durante anos, contive o veludo áspero da pata,
a soleira da pata, a vogal da pata.
Preparei a vingança pelas palavras.

Os fragmentos citados certificam o caminho escolhido pela poética de Carpinejar. Por via dele, o artista pretende acordar os silêncios de sempre, com precisão e inquietante absurdidade.
Sua arte compassa com as aves que, pretendendo a perfeição do vôo, escolhem os desafios sobre falésias.
O autor parece procurar a poesia de ninguém, só encontrada na mais subida andaimaria, onde está a desumanização do que ele cria. Nesse sentido opina Ortega y Gasset:
“Não se trata de pintar algo que seja completamente distinto de um homem, ou casa, ou montanha, mas sim de pintar um homem que pareça o menos possível com um homem, uma casa que conserve de tal o estritamente necessário para que assistamos à sua metamorfose, um cone que saiu milagrosamente do que era antes uma montanha, como a serpente sai de sua pele.”

Fico à vontade para dizer de Carpinejar um excelente autor de poesia, principalmente porque sequer o conheço. É como se estivesse a escrever sobre Donne, Dante ou Yeats, distantes, indiferentes e desfeitos em terra, pela usina da terra.
Ocorreu-me a leitura do seu livro, com dedicatória do romancista Fernando Monteiro, logo após conversar com este sobre a escassez de boa poesia no atual contexto.
Na ocasião, Monteiro (escritor viajadíssimo) convenceu-me de nenhuma retração da melhor poesia, apontando exemplos de estar ela em livros e mentes de poetas fundamentais e de muita atuação. Agora, com um trânsito inversamente proporcional ao crescimento considerável de textos poéticos ruins, chancelados por troféus que geralmente não retinem.
Novíssimo Testamento, poema final de Biografia de Uma Árvore, é a consagração de acentuada dose de virtuosismo metafórico, preponderante no livro. O olhar, é sabido, por mais que a beleza o encante, necessita de repouso, a fim de poder operar o trabalho da inteligência. Com vida e labuta, o autor haverá de pensar nisso.
Diria ainda: as dissonâncias modernas de sua linguagem, com tensão e fuga do real, precisam voar sem medida, numa poesia magra de hábitos, única e prestes a desligar-se de naturais e dispensáveis influências.
A Biografia de Carpinejar, autorizada pelos pássaros, raízes e frutos, é emblemática do homem triste, ajoelhado por ordem de Deus.
São prescindíveis palavras de louvor ou crítica a seu livro, realizado no presente, para trilhar o futuro, sob a advertência do autor: A disciplina é dos mortos./ Vivo desorganizando./ Para que transcender ?/ O divino em nós tarda em se humanizar./
Portentoso em sua expressão criadora, o livro Biografia de Uma Árvore exige reflexão corajosa sobre a “função fabuladora” da poesia, ou seja, dar resposta consistente quanto à sua indestrutível continuidade, às regras atuais de alienação, praticidade e indiferente consumo. Anima, finalmente, para lembrar Shelley (Percey Bisshe Shelley, (Defesa da Poesia), ao dizer de poetas inteiros como Carpinejar - Trombetas que chamam à batalha e não sentem o que inspiram. [...] Os legisladores desconhecidos do mundo -.

Quantas foram as miudezas que não combinavam
com o conjunto e, na falta de harmonia,
abandonei no depósito da infância?

E se faltou confiança para restaurá-las ao convívio,
faltou coragem para excluí-las em definitivo.

Somos o desperdício do que estocamos.
Não aprendemos a desaprender.
Não doamos nada, nem a palavra passamos adiante.
De um outro livro do autor, pensei repentinamente estes versos, certamente pelo instigante e insólito de sua construção. Posso admitir encontrar-se aí uma explicação mínima da mencionada função fabuladora da arte poética, pela qual se encandeiam e influenciam os poetas, da antigüidade ao medievo, até a modernidade, como ensina E. R. Curtius. Mas isso é outra história.


Publicado no Diário de Pernambuco em 11 de fevereiro de 2003.