Lembrei de Sábato, ao fechar lido A Múmia do Rosto Dourado do Rio de Janeiro, livro do escritor e poeta Fernando Monteiro, publicado pela Globo. É de Ernesto Sábato, autor argentino, nascido no lugar Rojas, província de Buenos Aires, o ensinamento sobre o lado obscuro do romance moderno: "não mais existe aquele narrador semelhante a Deus, que sabia tudo e tudo esclarecia. [...] Em tais condições a obra fica como que inconclusa e, a rigor, tem seu acabamento ou desenvolvimento no leitor: a criação se prolonga no espírito do que a lê (O Escritor e Seus Fantasmas)”.
Estas características são vistas no processo ficcional de Fernando Monteiro. Em jornal do sul do país, numa recente entrevista, ele próprio afirma que o tecido de seu trabalho narrativo necessita da imaginação do leitor para completar o quadro, para preencher as lacunas e desdobrar, ainda mais e melhor, a dobra na qual trabalha meio sentado na tal bacia de alumínio jogada de volta pelo mar indeciso da vida.
No romance acima focado, propositadamente, não há conclusão, por exemplo, sobre o sono da menina que dormiu 25 anos; o leitor exige ainda mais, no entanto, ficam somente em clarões fugazes as perseguições salazaristas, com velados ecos do aplauso freyriano, etc etc. Enquanto durou a leitura do livro houve instantes em que, mentalmente, me propus parceiro do autor, como nos versos “Triste como um navio sem descanso / sonhador de atracadouro / à margem de campos dourados / do bom trigo manchado pela sombra / de alguma árvore / que voa”.
Estão aí somente algumas das idéias e sugestões encontradas no texto romanesco de FM, adequando-o à lição de Sábato, palavra por palavra. Ele constrói mesmo uma “alucinante autonomia de cacos”, conseguida nos serões intermináveis de sua veloz “máquina de narrar”.
Da primeira leitura (outras virão) ficam alguns questionamentos no leitor menos afeito à técnica da narrativa moderna, sem dúvida dominada pelo autor. Multifário, seu livro conduz, por vezes, à inquietação experimentada na leitura do intrincado O Escaravelho de Ouro, do poeta e prosador Edgar Allan Poe.
Sinto-me ao mesmo tempo maravilhado e triste, ao enfrentar no romance algumas questões a respeito do tráfico de múmias, egiptologia, salazarismos, delação, arqueologia e repentina poesia de absoluto refinamento. Ou ainda – a indagação sobre o motivo de haver Joseph Conrad escrito o Lord Jim. Neste último caso, a explicação talvez esteja com o mestre Otto Maria Carpeaux: “Conrad foi sempre um sem pátria, um expulso, como o seu Jim”. Então, conceber o Lord, terá sido para Joseph Conrad narrar a sua própria história – de um marinheiro de mar sombrio, inglês adotivo e escritor de incontáveis sofrimentos e mistérios.
N´A Múmia do Rosto Dourado, todos esses diferentes quadros (como falenas ao redor de acesa lamparina) estão ilimitadamente entranhados na biografia de quem provavelmente nunca existiu, e, não bastasse isso, possuiu dois nomes.A qualidade de triste a que me atribuo, é saber-me aprendiz ante o estranhamento e a erudição com que pôde Fernando Monteiro revestir o seu grande livro. Concluo ser a velocidade do seu raciocínio, a maneira de negar-se às repetições literárias, culpadas pelo esgotamento estético da narrativa tradicional. O preço a pagar por isso, o autor sabe (nos atuais dias de tantos equívocos e pálido rigor nas artes), é ter escrito um livro fadado ao porvir, ou seja, à solidão de alguns anos, até ser mais bem assimilado.
Publicado no Diário de Pernambuco em 30 de novembro de 2004.
terça-feira, 30 de novembro de 2004
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