A 9 de julho de 1832, nos arredores do município de Guimarães, Estado do Maranhão, nascia Joaquim de Sousa Andrade, ou Sousa-Andrade, ou ainda Sousandrade. Afinal, prevaleceu o proparoxítono Sousândrade, para assim ficar definitivamente conhecido o poeta maranhense.
Cronologicamente, ele pertenceu à segunda geração romântica brasileira. No entanto, a dissonância da sua poesia, bem cedo o fez estranho à dicção poética de seus coevos, cujo poetar buscava alimento em lavoura idêntica e abundante. Por destino, e contra o fácil “sim”, Sousândrade defendeu-se com o jejum do “não”, entregando-se à criação de uma arte assimétrica, mas de muita contenção e essencialidade.
À convivência nas tabernas da tuberculose importada, e às borboletas inocentes dos poetas de então, e de pouca estrada, Sousândrade se opôs. Para criar, ao invés de aconselhar-se na estética de Musset e Chateaubriand (nomes exponenciais do romantismo francês), escolheu, já ali, arengar com a usura de Wall Street, que dava sinais de suas garras. No livro “Guesa Errante”, Canto Décimo, faz denúncia de um inferno financeiro, ou seja, “o inferno de Wall Street”, movido por argentários venais, escondidos em mantificação religiosa, para depois ofender e espoliar, com Deus ou sem ele. A respeito destes personagens, escreveu o poeta: “A bíblia da família à noite é lida; / Aos sons do piano os hinos entoados, / E a paz e o chefe da nação querida / São na propriedade abençoados. / Mas no outro dia cedo a praça, o stock, / Sempre acesas crateras do negócio, / O assassínio, o audaz roubo, o divórcio, / Ao smart Yankee astuto, abre New York.”
Fosse Ezra Pound brasileiro, os seus “Cantares”, iniciados em 1917, levariam a pensar que estivessem influenciados pelo “Guesa” de Sousândrade, escrito a partir de 1877. Isto, pela similitude que têm os versos acima, com alguns dos Cantos de Pound, a exemplo deste excerto, de idêntica denúncia: “Com usura nenhum homem tem boa casa / toda em pedra, nenhum Paraíso na parede do seu templo / Com usura se aparta o canteiro do seu mármore / o tecelão é separado do tear pela usura / A lã não aparece no mercado / o camponês não come do seu trigo”
Seja como for, o poeta maranhense foi um dos precursores da poesia moderna no mundo, tendo como possível predecessor o peregrino Walt Whitman, autor das “Folhas de Relva”. No Brasil, por certo, as experiências lingüísticas de Sousândrade, são o arquétipo ou a preparação para Mário de Andrade inventar, no futuro, o “Macunaíma”, e Oswald de Andrade os seus “Manifestos”. Contudo, durante muitos anos a “aviação poética” sousandradina esteve embaçada nas nuvens da indiferença e do preconceito, até passar a nevasca, dando vez à aterrissagem do seu canto em chão de merecida claridade.
Limitar-me a um pequeno enfoque biobibliográfico deste inquieto criador foi minha real intenção, considerando as normais contenções de espaços em jornal, para a publicação de ensaios desta abordagem. Enfim, seria descabido nestes dias de minguada crítica literária pelos veículos da comunicação escrita, pretender estender-me numa impressão analítica da obra complexa e instigante de Sousândrade. Esta missão, começada exemplarmente por Augusto e Haroldo de Campos, Fausto Cunha, Luis Costa Lima e alguns outros, seria tarefa, creio, de mestres em letras, fazendo incluir nos currículos escolares e universitários, a poesia de Sousândrade - polissêmica e incendiária de limitações. É urgente que, por essa via da informação, ou similares, chegue aos interessados o conhecimento da obra numerosa do artista, dando-se destaque a “Harpas Selvagens”, “Eólias”, “Guesa Errante”, “Tatuturema”, “Novo Éden” e “Harpas de Ouro”.
Não raro, a existência de grandes nomes está tomada por situações, muitas vezes buscadas à fabulação. Com este poeta não foi diferente. E da fantasia ao fato concreto registra-se dele este vaticínio, quando da edição de sua obra maior: “Ouvi dizer já por duas vezes que o Guesa Errante será lido cinqüenta anos depois; entristeci – decepção de quem escreve cinqüenta anos antes.”
Em posição de muito avanço para o tempo por ele vivido, Sousândrade previu o futuro da poesia. Demonstram isso as ousadas técnicas de composição, utilizadas por poetas de gerações epígonas. Alguns deles, penso, influenciados pelo autor de “Novo Éden”. Neste sentido, é oportuna a observação do crítico literário Fausto Cunha: “As direções tomadas pela poesia moderna, valorizando a criação no absurdo e a violentação do organismo verbal, conferiram a Sousândrade o direito de figurar como um precursor genial ou quase isso (Romantismo no Brasil).”
Estudos sistemáticos ainda haverão de ser realizados sobre a escrita sousandradina, para derramar luz em seus versos eletrizantes, que são “tomadas cinematográficas”, como estes, iguais a ardentias: “Vede a tremente / Ondulação das malhas luminosas / Num relâmpago, o tigre atrás da corça.” (Guesa, Canto V).
O fenômeno de sua arte está a exigir que se explique a necessidade no artista de subverter filologicamente, num tempo de absoluta ordem estética. Há de se mostrar em Sousândrade, com mais acuidade, a procura sem descanso numa época irressonante, da beleza “caótica e aparentemente destroçada”. Para isso o poeta recorria a hibridismos, fazendo uso de línguas estranhas ao português, mas que conduzissem a um fim harmônico: “sobre-rum-nadam fiends, rascáls, / Post war Jews, Jesuítas, Buffs / Que decidem de uma nação / A cancan ! ... e os èros / Homeros / De rir servem, não de lição.”
Ainda reclama estudos o uso imoderado pelo poeta de termos compostos (Lírio-luz, olhos-alma, flores-noivas, sul-meteoros, etc), de cujo experimento ele procurava alcançar a sonoridade das palavras. E, muitas vezes, na ânsia obsessiva pela música e revolução ortográfica, surpreendia a si próprio com a maestria lírica de versos assim:
“Onde vivi, que estou como os que sobem
Tontos do abismo à luz dos oceanos?”
...
“Vê-se como tão rápido anoiteço,
Como de sombra e solidão me enluto.”
O “Guesa Errante”, sua obra mais importante, baseou-se na lenda indígena do mesmo nome, ou seja, uma criança que é subtraída de seus pais para viver a sorte do deus do sol, Bochica. Educada com esmero, aos 15 anos era morta a flechadas, arrancando-se-lhe o coração em oferenda ao sol. A cerimônia estaria sempre a repetir-se com similares ritos e o sacrifício de outra criança, em substituição à que fora morta.
Um vidente, pode-se dizer de Sousândrade. Sua obra “Guesa Errante”, escrita quando ele fazia périplos pelo mundo (deambulou entre a Europa e os Estados Unidos, onde residiu por muitos anos), tem algumas semelhanças com o seu próprio destino. A criança da lenda vivia as regalias do fausto para morrer aos 15 anos de idade. Sousândrade, de existência afortunada e longa, morreu em São Luís, abandonado e na miséria aos 70 anos, no dia 21 de abril de 1902. Há cem anos? Oh, minha pátria de nus e quase nenhuma memória. Do seu desleixo por filhos bons e próceres, confesse pelo menos: - se o coração reflete, a alma está de luto...
Publicado no Diário de Pernambuco em 01 de agosto de 2003.
sexta-feira, 1 de agosto de 2003
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