No recente episódio de devastação e ódio, patrocinado por acordo anglo-americano, cada um viveu o seu momento de saturação e desânimo, perante a desfaçatez e a prepotência bélica, de cuja parceria o mal, travestido no bem, se quer impor sem o dispêndio do correspondente ônus moral e ético. Iniciada em março, a barbárie foi se repetindo e, até vir a capitulação do mais débil, os que acompanharam os fatos, nada podendo em favor de Bagdá em chamas, viveram o sentimento de choro e esconjuro.
Como os demais, amargamos nossa parcela de dor, indo inclusive buscar nos livros o esquecimento momentâneo do horror beligerante. Não por acaso debruçamo-nos na releitura de A Terra Desolada para constatar logo em seu início, que nem sempre “abril é o mais cruel dos meses”. E em qualquer tempo, portanto, a brutalidade pode reproduzir Flebas, o Fenício, que a soçobrar “esqueceu o grito das gaivotas e o marulho das vagas e os lucros e os prejuízos”. O poema de Eliot também não por acaso, levou-nos a pensar no poeta José Carlos Targino, criador de pouca, mas marcante e maior poesia, assunto e real propósito destas linhas.
Escrevendo desde os anos 60, Targino produziu dois livros – Sortilégios e Êxtase, e deles extrai poemas para eventuais apresentações de sua poética em antologias, razão de nos parecer escassa (por opção e rigor dele) a sua poesia. Por onde andará José Carlos Targino e que destino deu ao seu compromisso com a poesia, é a indagação de muitos.
Visto como um poeta pouco acessível, ou mesmo difícil, ele se defende: “É possível que o fato de ter ancorado primeiro em portos menos contaminados por dicções tradicionalistas, românticas ou parnasianas, mergulhando com entusiasmo nos vastos oceanos do verso livre, cultivando maravilhado os surrealistas, Drummond, Eliot, Dylan Thomas, todos “difíceis”, tenha erguido barreiras nada desprezíveis entre mim e os meus leitores”.
Neste depoimento de 1997, inserido na apresentação que fez sobre ele próprio e sua criação literária, quando editados alguns dos seus poemas nos Cadernos de Poesia, idealizados pelo Governo do Estado de Pernambuco, Targino deu, sem rodeios, as explicações possíveis a respeito de seus textos poéticos e do comportamento anacoreta por ele assumido. Aí pode estar a decisão do poeta, quanto ao seu distanciamento dos meios literários do Recife, principalmente quando percebe o escoar quase completo de uma crítica literária empenhada no ofício da análise séria de obras concebidas em padrões estéticos igualmente sérios.
Tudo isso, sem contar com o descaso do mercado editorial ante os poetas. Seus livros, todos sabem, com raras exceções, estão condenados ao índex, castigo que era imposto pela igreja católica, em tempos imemoriais, aos livros proibidos de circulação.
Estas regras de indiferença e visível esgar, não há dúvidas, acabam por imotivar outros escritores de poesia, tornando-os mesmo solipsistas, embora neles nada justifique o abandono daquilo que se estreita e procura o mais profundo da alma. Nada autoriza ao poeta Targino esconder do mundo e do seu tempo, a poesia que escreve: “Jovens e velhos despertam para o dia enlutado. / Pois o tempo, / Imperioso como o verdugo armado, / Marcha com a morte ao pé da tumba. / E ao pé da tumba todos mergulham para sempre.”
Não pode tremer ou temer nada, quem há mais de trinta anos escreveu versos que lhe conferem o dom da triste premonição: “Quando isso acontecer, recolha-se em um abrigo. / Zombe das feras, elas ficarão à distância; / Olhe com amor seus utensílios. / O campo de pouso certamente ruirá, / Os conquistadores não resistirão a tanto; / As constelações mudarão seu curso, / E as lunetas dobrar-se-ão ante o olhar das aves; / As mordaças ainda cederão, inúteis / como a nudez do vento num lago prateado.”
Aventuramos dizer: o fragmento tem comparativo com o “Sermão do Fogo” de T.S. Eliot. Está na mesma atmosfera de “Vinte e Quatro Anos” de Dylan Thomas.
A poesia de José Carlos Targino (“Uma Voz, Duas Vozes”, “Como Espiral”, “Ufo”, etc.) recebe o eco, além de outros, destes dois poetas de língua inglesa, ambos a exigirem do leitor de poesia, extraordinária equipagem intelectual, capaz de decifrar na sua invenção poemática uma recorrência constante às mais diversas fontes de erudição, para a construção final de versos imageticamente difíceis. Neste universo de nítidas afinidades, não é incomum se achar na poesia de Targino palavras como fauno, elmo, falcão, de quase nenhum uso na poética brasileira, notadamente a partir do novecentos (1922), quando qualquer sintoma de estrangeirismos foi afastado da dicção literária nacional.
Não queremos assim apontar enganos na escrita estética do autor. Os poetas de vôos pagam um alto preço no seu tempo, quando escolhem caminhos que não aceitam o puro chão, ou seja, a travessia comum da soberba inútil. E aí, todos os meios são válidos para o sonho do indizível. Foi assim com Sousândrade, autor de O Guesa, livro pensado no apogeu do nosso romantismo de segunda mão. Foi assim com Gerard Monley Hopkins, estranho e incompreendido, a balbuciar vacilante frente à indiferença do seu tempo: “As aves constroem. Não eu; em lidas infelizes, / Eunuco do tempo, não crio obra que viva. / Senhor da vida, envia chuva a minhas raízes”.
Ao contrário de Hopkins e em vista da insensibilidade dos atuais e pobres dias, mirando longe, Targino afirma com altivez: “Não me convenço de nada / que esteja perto da vista, / mas sei de estrelas tão altas / que a ilusão não avista.”
De resto, um oportuno registro: o desdobramento do assunto sobre o isolamento voluntário de José Carlos Targino, levou-nos a pensar na mesma e insular opção assumida por três outros poetas do Recife, de igual importância - Gladstone Vieira Belo, José Luiz de Almeida Melo e Domingos Alexandre. Lamentamos que assim tenha de ser, sobretudo agora, quando cada lugar do mundo, sob cinzas, mais necessita do canto de seus poetas, como no breu a tatear – os privados de archotes.
Publicado no Diário de Pernambuco em 16 de abril de 2003.
quarta-feira, 16 de abril de 2003
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