domingo, 15 de setembro de 2002

MARCO POLO: A CAMINHO DO ALCÂNDOR

Os bons livros não estridenciam. Eles são como uma primavera, que antes de mostrar o esplendor, com vassoura de ouro recolhe os últimos vestígios de lágrima e frio da estação terminada.
A Superfície do Silêncio é uma dessas obras. E sua grande ambição consiste em flagrar a respiração das menores coisas, ou tornar-se mágico pincel, para dar cintilo a motivos anônimos e rastros nus – túnica dos que no silêncio jornadeiam.
Por isso, mais lhe interessa o pormenor ao rebuscamento metafórico, o ínfimo à ostentação, prova de completo amadurecimento do seu autor, o poeta Marco Polo.
Observador atento, escreve o artista: “Pela manhã os pássaros / vestem plumagens limpas. / O rio é um silêncio líquido. As árvores / foram lavadas com águas verdes. / Pela manhã o canto claro do galo / atravessa o túnel longo do sono. / Algo estala as sementes. / Algo como um aroma de frutas”.
A tessitura de todo o livro é comprometida com poemas originados dessa teia quase indizível, feito linhas da luz.
É da capacidade dos verdadeiros criadores dar magnitude e transcendência às experiências mais impregnadas de vícios e cotidiano. Marco Polo consegue isso, e sem favor, pode ser comparado ao festejado William Carlos Williams, em aventuras de igual ousadia, alcançadas por este em poemas como A Uma Velha Pobre, A Duração e O Carrinho de Mão Vermelho, onde se lê: “tanta coisa depende / de um / carrinho de mão / vermelho / esmaltado de água de / chuva / ao lado das galinhas / brancas”.
No seu livro singular, Polo consegue ainda uma habilidade dual, ou seja, a carga sinestésica capaz de unir percepções diferentes, como imagem e som, ou a possibilidade de se “avistar o grito das araras”. É como está no poema O Leitor, O Escritor: “enquanto a noite pinga / lentamente sua tinta / e o sol se despedaça / na funda mina da mente / navegas um mar repleto / de sangue e ar, mar completo / de dança e gesto, discreto / perfume e lâminas claras / secreto labirinto e franca / viagem na página branca”
A leitura atenta do livro de Marco Polo impõe forçosamente ombreá-lo a outro mestre da melhor poesia, extraída menos de cenas e visões exuberantes, e mais da simplicidade, encontrada em alguns objetos e coisas: Joan Brossa.
Autoriza pensar assim, a qualidade que tem Marco Polo, de escrever, qual o poeta catalão, uma poesia plástica, “de difícil facilidade” e muita concisão, nascida certamente da convivência experimentada por ele com pintores vigorosos, o caso também de Brossa, autor dos Poemas Civis, íntimo de Joan Miró e do impossível Marcel Duchamp.
O trabalho de criação de Marco Polo está para a linhagem estética do vate barcelonês em muitos dos poemas deste, a exemplo de: “Siga para baixo. Tome a rua / da direita. Depois de ter / caminhado um trecho, tem uma / outra que dobra para cima; siga-a./ Tome a segunda rua que encontrar / e chegará a uma praça; a / passagem da esquerda levará / até a casa que você procura. / Mas não sei se poderá entrar, / costumam não estar nunca”.Tem uma explicação feliz escrever sobre o alcandorado A Superfície do Silêncio: o autor do livro persegue o que é compromisso de sofrimento dos poetas empenhados em construir grandeza na expressão mais simples, aspirando à “dolorosa atitude de luta contra o hábito e a algo que vá, por sua vez, romper, no espectador, a dura crosta de sua sensibilidade acostumada, para atingi-la nessa região onde se refugia o melhor de si mesma: sua capacidade de saborear o inédito, o não-aprendido”. Sob olhar inquisidor e à lembrança desta pequena, mas luminosa lição do mestre João Cabral de Melo Neto (Prosa - Nova Fronteira), Marco Polo terá escrito um livro de muitas promessas.


Publicado no Jornal do Commercio em 15 de setembro de 2002.