sexta-feira, 12 de agosto de 2005

SOBRE PÓS-MODERNIDADE: UMA REFLEXÃO

Próximo da morte, e realizada quase inteiramente a sua obra monumental, Vincent Van Gogh ainda demonstrava preocupações com o fazer pictórico. Escravo da ambição pelo novo, escrevia ao irmão Théo, numa de suas cartas, dizendo-se contrário à perfeição fotográfica defendida por algum artista acadêmico de então: “Diga-lhe que meu grande desejo é aprender a fazer tais incorreções, tais anomalias, tais modificações, tais mudanças da realidade, de forma que resultem, sim, mentiras, se lhe apraz, mas mais verdadeiras que a verdade literal”.
A mesma inquietação comandou a poesia de Arthur Rimbaud, ao conceber de costas para a “ordem”, uma poesia de impetuosidade, exígua e explosiva, marcada por estilo baseado na deformação do real, com vistas à transcendência do comum, de lugar e tempo.
Não sem motivo lembramos estes excepcionais artistas, sempre preocupados em melhor e mais ousadamente criar, ao pensarmos no termo pós-modernidade, que transbordou em alcances, e tem conseguido pôr sob seus tentáculos, além de inúmeras manifestações estéticas do homem, a própria literatura, e a poesia em particular.
Nesse contexto, os próprios teóricos do assunto, como afirma Afonso Romano de Sant Anna, não estão bem seguros do que proclamam. Para exemplificar, Romano cita a Poética do Pós-Modernismo, da autora Linda Hutcheon, ed. Imago, desta enfocando: “O pós-modernismo é um fenômeno contraditório, que abusa, instala e depois subverte os próprios conceitos que desafia”.
Reflexo da globalização, a pós-modernidade contamina valores culturais, desconstrói fronteiras, artes, e assim, a serviço de interesses do imperialismo consumista, consegue erguer o troféu do simulacro, para tornar velozmente possível e efêmero, tudo, dispensando paciência e sacrifício vocacional até nos interessados pela expressão artística.
Observa-se nos dois últimos decênios, que a poesia pós-moderna eivou de suspeita o próprio nome desta arte, posto haver se convertido em atividade pouco séria, em mãos apressadas, perdendo mesmo o status de “festa do intelecto”. Por isso, o excesso de poesia sem qualificação, tem profanado o verso de rigor - praticamente sumido. Tal constatação foi segredada, até descobrirmos em outros o eco de nossa perplexidade perante colossal paiol, onde o escasso e germinal trigo tem perdido feio para o joio inútil e abundante.
O poeta pós-moderno, com felizes exceções (Lembramos de Pietro Wagner, Delmo Montenegro, Jacineide Travassos, Fabrício Carpinejar e Luiz Carlos Monteiro, bons poetas, entre outros, além de estudiosos do fenômeno literário), não quer paradigma com a lírica de fôlego; com o que faz a obra aberta a diferentes interpretações. Ele não quer afastar-se do poetar perigosamente quantitativo, idêntico e de irressonante ar coloquial, incapaz de arrancar de si uma voz singular, única. Enfim, sua vontade é produzir, sem preocupar-se com a invenção. A propósito desta, citamos adiante o fragmento de entrevista concedida ao Guia de Poesia, em 19.10.2004, pelo poeta, crítico literário e antologista Frederico Barbosa: “dizer que a invenção está acabada é como dizer que a história morreu... As vanguardas não foram o único momento inventivo na arte. Homero é um poeta de invenção, assim como Ésquilo, Sófocles... Não consigo conceber um poeta que se sente para escrever um poema “velho”. Ele sempre há de querer dizer algo novo. Ou não será poeta”.
Diversos autores “pós”, nas últimas décadas, necessitam de reflexão comparativa e da aceitação do que é indiscutível, ou seja: sobre precipícios, um pássaro somente será exitoso em sua escalada, se tiver medidas, força viva e “simetria de vôo”. Do contrário, a rotundidade dos espaços, subitamente, o fará entulho nos mesmos despenhadeiros que há pouco estivera sobrevoando.
Outra voz a lamentar o equívoco de tantos pós-modernos é a do escritor Daniel Piza, no Jornal de Poesia, ao comentar alguns livros: “Li neste fim de semana, por exemplo, duas antologias organizadas por Heloisa Buarque de Holanda, “26 Poetas Hoje” e “Esses Poetas”. (Editora Aeroplano). Procurei muito e não encontrei quase nada, apenas um verso ou outro. [...] Mas os poetas brasileiros desses volumes, são tímidos, parasitários, acabrunhados”.
Seria proveitoso que os arautos da pós-modernidade poética não deixassem de lembrar aos artistas da palavra, e primeiramente aos mais novos, que nos bons líricos, as liberdades formais não defendem o descompromisso com a invenção, mas correspondem a uma bem refletida pluralidade de sinais significativos, objetivando a transcendência das categorias usuais da linguagem, como ensina o teórico Hugo Friedrick. Os mesmos arautos trombeteiam o fim das vanguardas, tudo bem. Entretanto, não podem dispensar o culto da investigação, ou a solidão criadora nos procuradores da beleza. Só estes encontrarão o verdadeiro reconhecimento. E para que não estanquem suas buscas, de cais em cais, peregrinos, poderão só ter de seu, até o fim, o encanto da imprecisão.
Nunca se fará poesia, a poesia que tenha o dom das sementes, sem predispostos ouvidos à lição do poeta de Itabira, contra a licenciosidade e a bombástica: “Convive com teus poemas antes de escrevê-los. / Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam. / Espera que cada um se realize e consuma / com seu poder de palavra / e seu poder de silêncio”. No poder de silêncio, intui Carlos Drummond de Andrade, deve estar o instante de mistérios do verso inicial, quando o artista completo está em segredos com Deus...


Publicado no Diário de Pernambuco em 12 de agosto de 2005.