terça-feira, 30 de novembro de 2004

ESCRITOR DOURA MÚMIA

Lembrei de Sábato, ao fechar lido A Múmia do Rosto Dourado do Rio de Janeiro, livro do escritor e poeta Fernando Monteiro, publicado pela Globo. É de Ernesto Sábato, autor argentino, nascido no lugar Rojas, província de Buenos Aires, o ensinamento sobre o lado obscuro do romance moderno: "não mais existe aquele narrador semelhante a Deus, que sabia tudo e tudo esclarecia. [...] Em tais condições a obra fica como que inconclusa e, a rigor, tem seu acabamento ou desenvolvimento no leitor: a criação se prolonga no espírito do que a lê (O Escritor e Seus Fantasmas)”.
Estas características são vistas no processo ficcional de Fernando Monteiro. Em jornal do sul do país, numa recente entrevista, ele próprio afirma que o tecido de seu trabalho narrativo necessita da imaginação do leitor para completar o quadro, para preencher as lacunas e desdobrar, ainda mais e melhor, a dobra na qual trabalha meio sentado na tal bacia de alumínio jogada de volta pelo mar indeciso da vida.
No romance acima focado, propositadamente, não há conclusão, por exemplo, sobre o sono da menina que dormiu 25 anos; o leitor exige ainda mais, no entanto, ficam somente em clarões fugazes as perseguições salazaristas, com velados ecos do aplauso freyriano, etc etc. Enquanto durou a leitura do livro houve instantes em que, mentalmente, me propus parceiro do autor, como nos versos “Triste como um navio sem descanso / sonhador de atracadouro / à margem de campos dourados / do bom trigo manchado pela sombra / de alguma árvore / que voa”.
Estão aí somente algumas das idéias e sugestões encontradas no texto romanesco de FM, adequando-o à lição de Sábato, palavra por palavra. Ele constrói mesmo uma “alucinante autonomia de cacos”, conseguida nos serões intermináveis de sua veloz “máquina de narrar”.
Da primeira leitura (outras virão) ficam alguns questionamentos no leitor menos afeito à técnica da narrativa moderna, sem dúvida dominada pelo autor. Multifário, seu livro conduz, por vezes, à inquietação experimentada na leitura do intrincado O Escaravelho de Ouro, do poeta e prosador Edgar Allan Poe.
Sinto-me ao mesmo tempo maravilhado e triste, ao enfrentar no romance algumas questões a respeito do tráfico de múmias, egiptologia, salazarismos, delação, arqueologia e repentina poesia de absoluto refinamento. Ou ainda – a indagação sobre o motivo de haver Joseph Conrad escrito o Lord Jim. Neste último caso, a explicação talvez esteja com o mestre Otto Maria Carpeaux: “Conrad foi sempre um sem pátria, um expulso, como o seu Jim”. Então, conceber o Lord, terá sido para Joseph Conrad narrar a sua própria história – de um marinheiro de mar sombrio, inglês adotivo e escritor de incontáveis sofrimentos e mistérios.
N´A Múmia do Rosto Dourado, todos esses diferentes quadros (como falenas ao redor de acesa lamparina) estão ilimitadamente entranhados na biografia de quem provavelmente nunca existiu, e, não bastasse isso, possuiu dois nomes.A qualidade de triste a que me atribuo, é saber-me aprendiz ante o estranhamento e a erudição com que pôde Fernando Monteiro revestir o seu grande livro. Concluo ser a velocidade do seu raciocínio, a maneira de negar-se às repetições literárias, culpadas pelo esgotamento estético da narrativa tradicional. O preço a pagar por isso, o autor sabe (nos atuais dias de tantos equívocos e pálido rigor nas artes), é ter escrito um livro fadado ao porvir, ou seja, à solidão de alguns anos, até ser mais bem assimilado.


Publicado no Diário de Pernambuco em 30 de novembro de 2004.

quinta-feira, 28 de outubro de 2004

A LIÇÃO DE MUITOS

Poucos homens de gênio terão deixado de pensar na influência que sua obra exerceria sobre pósteros. Exceção é feita ao poeta Samuel Taylor Coleridge, nascido no século XVIII, a 21 de outubro de 1772, no condado de Devon, Inglaterra.
Autor de obra poética resumida e intervalada, ele próprio não acreditava ser um verdadeiro poeta, capaz de acender nos outros o fogo seminal da criação. Isso será verdade, na medida em que se confirma haver ele pensado mais na prosa, como veículo de comunicação, ao dedicar-se à ensaística, com predominância temática voltada para a literatura e a interpretação filosófica.
A poesia de Coleridge, um dos primeiros poetas românticos ingleses, está basicamente representada pelos poemas A Balada do Velho Marinheiro, Christabel e Kubla Khan, retirados de uma atmosfera de mistério e sobrenaturalidade. Aí residem as diferenças entre ele e seu bom amigo William Wordsworth, com quem fez parceria na criação das Baladas Líricas, cabendo ao primeiro dar à obra o tom fantástico, e ao segundo, preso à natureza, conferir-lhe a palpitação mais íntima das coisas comungadas com o rés e o cotidiano.
“É meia noite no relógio do Castelo. / [...] Algo suspira bem perto dali, bem perto, / Mas ela não pode dizer o que seja - / Parece estar do outro lado, / Do gigantesco, frondoso e idoso carvalho. / Fria é a noite, e nua a floresta; / Será o vento quem geme tão triste? O fragmento integra o poema Christabel, nome da filha de Geraldine. Esta, falecida, visitará a filha na erma floresta, a duzentos passos da porta do castelo. É predominante em todo o poema a sonoridade, a cadência do verso hexâmetro e o fantasmagórico. Tais recursos são também encontrados em Annabel Lee e O Corvo, dois famosos poemas de Edgar Allan Poe.
Igual ambiência anímica vai se experimentar em A Balada do Velho Marinheiro e em Kubla Khan. Na Balada, por exemplo, um albatroz é vingado por sua morte, provocada pelo ancião marinheiro e a tripulação do navio em que viajam. É possível que tenha este albatroz fermentado as idéias de Charles Baudelaire na criação do poema de mesmo nome, onde a ave é judiada por uma tripulação marinha.
Ainda que disperso e despretensioso, a influência de Coleridge alcança também a poesia de John Keats, George G. Byron e Shelley, segundo alguns de seus biógrafos. Não é demais supor que o mestre Machado de Assis tenha encontrado na mesma fonte coleridgeana, a centelha inicial de fazer um morto escrever “memórias”.
Os sofrimentos físicos e morais são responsáveis pelos demorados intervalos de tempo em que Coleridge nada produziu. Apanhado por uma febre reumática, precisou tomar uma mistura de ópio e álcool, para a diminuição de seus padecimentos. Daí em diante, nunca mais se libertou do vício. Nesses instantes de estertor físico e mental, nasceu o poema Dores do Sono, no qual confessa: “E assim duas noites: e a melancolia / Com seu torpor contaminava o dia. / O sono, larga bênção, era então / A desgraça pior da disfunção. / Dei, na terceira noite, horrendo grito / Que me acordou desse íncubo maldito, / E, em estranha e cruel desesperança, / chorei como se fosse uma criança”.
Como já afirmado, é notória a presença de Coleridge no tempo de sua existência, principalmente pelas conferências por ele pronunciadas (entre elas, as dirigidas à obra de Shakespeare), e o destaque atribuído à sua Biografia Literária, dividida em capítulos, para abordar com plenos assuntos de estética e filosofia. Sobre estes últimos há registros de interpretação ousada, além de acréscimos ao pensamento dos filósofos Emmanuel Kant e Sheeelling, gerando controvérsias e ataques ao poeta. O presente texto poderá despertar algum interesse nos que fazem literatura domínio. E motivou escrevê-lo a nossa incansável procura, de quase nenhum sucesso, em bibliotecas e livrarias, a fim de encontrar o que fosse da obra deste poeta e crítico literário. O conhecimento do trabalho criador de Coleridge foi marcante nos cânones da modernidade literária, impondo-se certamente aos poetas e escritores de hoje e de sempre. . Motivou ainda pensar este mínimo enfoque sobre a vida e a obra do autor, a leitura proveitosa dos livros Teorias Poéticas do Romantismo, com tradução, seleção e nota de Luíza Lobo, S. T. Coleridge – Poemas e Excertos da Biografia Literária, de Paulo Vizioli e Vidas de Grandes Poetas, de Henry Thomas e Dana Thomas. Sem consciência disso, Samuel Taylor Coleridge foi mesmo a lição de muitos. Ele preparou o adeus ao medievo, autorizando à palavra desbatinizar-se e dar cambalhotas, rumo a uma nova beleza, a uma nova estética nas letras.


Publicado no Diário de Pernambuco em 28 de outubro de 2004.

quinta-feira, 17 de junho de 2004

O SILÊNCIO DE EMILY

A arte de grandeza merece este panteão classificatório porque concebida, quase sempre, em clima de buscas sem descanso e convicção. Nela irradia uma fecunda simplicidade, capaz de transcender as reais possibilidades do ser criador.
Ocorrem tais digressões, quando volto a ler alguns dos 1775 pequenos poemas da poetisa Emily Dickinson, nascida em 1830. O seu verso é de muita contenção, equivocando a princípio os seus analistas, ao afirmarem tratar-se de anotações, ou fragmentos de poema. Mas, a real intenção de Emily foi escavar na emoção uma poesia de essência e elíptica, conduzida à glória pelo teor minucioso, próprio da ourivesaria: " A água se aprende pela sede; / A terra, por mares navegados; / O êxtase, pela dor; / A paz , pela luta que se teve; / Por campas In Memoriam, o amor / Os pássaros, pela neve."
Uma característica da escrita dickinsiana é não descansar no leitor as surpresas reais e encantatórias que virão, sempre. Afirma-se, por isso - o imagismo de Pound e seus continuadores, procurou nela , antecessora, a melhor fonte de influência. Pelo processo da fanopéia eles criaram o que se define por "um lance de imagens sobre a imaginação visual."
É espantoso como Emily consegue quintessenciar as palavras, a ponto de em verso fazê-las vibrar como metal valioso, numa identificação inconfundível: "Não viverei em vão, se puder / Salvar de partir-se um coração, / Se eu puder aliviar uma vida / Sofrida, ou abrandar uma dor, / Ou ajudar exangue passarinho / A subir de novo ao ninho / Não viverei em vão."
Mesmo assim, existem ocasiões em que, sem claudicar, o seu prazer é somente criar, com uma poesia propositadamente enigmática e pura: "E os Serafins badalam alvos chapéus / E os santos alvoroçam-se à janela - / Pra ver a pequena ébria / Escorando-se no sol."
Emily Dickinson nivelou-se ao incerto, à vaguidão, apenas para dar certeza, a muitos, de que sequer existiu. No entanto, através da fresta por onde observou o mundo, construiu uma poética de seguidores ( entre eles os imagistas Wallace Stevens e William Carlos Williams ), sob vigilante economia composicional.
Foi também uma visionária, ao definir pela força do seu gênio, o que jamais conseguiu tocar ou ver: "Nunca vi um campo de urzes. / Também nunca vi o mar. / No entanto sei a urze como é, / Posso a onda imaginar. / Nunca estive no céu, / Nem vi Deus. Todavia / Conheço o sítio, como se / tivesse em mãos um guia. " Sua existência gastou-a no pequeno lugar Amherst, Estado de Massachusetts, na América do Norte, onde faleceu ninguém, no ano de l886. Assume esta opção de voluntário silêncio, quem pôde afirmar num epigrama, premonitoriamente - partir é tudo o que do céu sabemos, e do inferno basta aqui -. A poetisa cumpriu ali o seu apostolado, escrevendo uma lírica de corajosa exceção, para só depois impressionar gerações. Bem depois, quando já não servem os aplausos, a que ela chamaria de ilusão prejudicial.


Publicado no Diário de Pernambuco em 17 de junho de 2004.

sábado, 3 de abril de 2004

PELA ARTE

Não faz tempo, assisti ao filme Segunda-Feira ao Sol, dirigido por Fernando Leon, que tem como enfoque o desatino provocado pelos excessos da globalização. O homem sozinho e desolado, a falência do emprego e a destruição de valores sagrados, como a família e os bens ético-culturais, são as maiores vítimas de tais destroços, apontadas no filme. Acredito estar na reflexão deste espetáculo do cinema, o gancho a nortear o presente texto, já há dias ideado.
Na atual cena planetária, de características pragmáticas, algumas das artes sofreram e ainda sofrem o descaso do apetite consumista, e nesse contexto a poesia vem a ser atividade ou “mercadoria” de nenhum valor, inútil para muitos.
Não é de agora que a arte de Homero é brutalizada e padece vicissitudes de determinadas épocas. Mesmo assim, retorna sempre ao seu lugar, o de conectar-se com o ser humano, para a comunhão sensorial da beleza.
Como os indiferentes e céticos ao papel da poesia no mundo, também existem os que a defendem e divulgam em qualquer tempo. Em Pernambuco, desde o início do ano, os ventos sopram favoráveis à poética, menos por ação de mecenas, e mais pelo decidido empenho de instituições públicas do Estado e município do Recife, independente de macartismos políticos.
Num gesto de desprendimento, o poeta Marcus Accioly, presidente do Conselho Estadual de Cultura, em parceria com a CEPE, está publicando mensalmente, no suplemento cultura do Diário Oficial do Estado, poema, resenha e foto dos poetas de sua geração. Para divulgar a poesia, Accioly não está dando relevância a eventuais injustiças, além de ter de administrar com paciência idiossincrasias que nunca deixaram de existir nos meios artísticos e literários.
A Fundação de Cultura da Cidade de Recife, com o trabalho exemplar de Heloísa Arcoverde, Pedro Américo de Farias, Everardo Norões e José Carlos Targino, fez publicar recentemente a coletânea Estação Recife, um livro de bonito feitio e acabamento, trazendo poemas de César Leal, Jaci Bezerra, Ângelo Monteiro, Janice Japiassu, Alberto Cunha Melo, num total de dez autores, em plena combustão criadora.
A antologia foi lançada no Teatro de Santa Isabel, em 23 de março, com declamação dos poemas, iluminados pela música dos clássicos Beethoven, Schubert e Franz von Supée, executada pela Orquestra Sinfônica do Recife, sob a regência do excelente maestro Osman Giuseppe Gioia.
Na ocasião, alegre pelo brilho do acontecimento artístico, assaltaram-me inexplicavelmente, por mais de uma vez, os versos de Bertolt Brecht: “As florestas crescem ainda/ Os campos produzem ainda/ As cidades ainda estão de pé/ Os homens respiram ainda”.
Convicto, diria afinal: música e poesia, sem pátria ou sectarismos que as condicionem, não desaparecerão – nunca.


Publicado no Diário de Pernambuco em 03/04/2004.