A arte de grandeza merece este panteão classificatório porque concebida, quase sempre, em clima de buscas sem descanso e convicção. Nela irradia uma fecunda simplicidade, capaz de transcender as reais possibilidades do ser criador.
Ocorrem tais digressões, quando volto a ler alguns dos 1775 pequenos poemas da poetisa Emily Dickinson, nascida em 1830. O seu verso é de muita contenção, equivocando a princípio os seus analistas, ao afirmarem tratar-se de anotações, ou fragmentos de poema. Mas, a real intenção de Emily foi escavar na emoção uma poesia de essência e elíptica, conduzida à glória pelo teor minucioso, próprio da ourivesaria: " A água se aprende pela sede; / A terra, por mares navegados; / O êxtase, pela dor; / A paz , pela luta que se teve; / Por campas In Memoriam, o amor / Os pássaros, pela neve."
Uma característica da escrita dickinsiana é não descansar no leitor as surpresas reais e encantatórias que virão, sempre. Afirma-se, por isso - o imagismo de Pound e seus continuadores, procurou nela , antecessora, a melhor fonte de influência. Pelo processo da fanopéia eles criaram o que se define por "um lance de imagens sobre a imaginação visual."
É espantoso como Emily consegue quintessenciar as palavras, a ponto de em verso fazê-las vibrar como metal valioso, numa identificação inconfundível: "Não viverei em vão, se puder / Salvar de partir-se um coração, / Se eu puder aliviar uma vida / Sofrida, ou abrandar uma dor, / Ou ajudar exangue passarinho / A subir de novo ao ninho / Não viverei em vão."
Mesmo assim, existem ocasiões em que, sem claudicar, o seu prazer é somente criar, com uma poesia propositadamente enigmática e pura: "E os Serafins badalam alvos chapéus / E os santos alvoroçam-se à janela - / Pra ver a pequena ébria / Escorando-se no sol."
Emily Dickinson nivelou-se ao incerto, à vaguidão, apenas para dar certeza, a muitos, de que sequer existiu. No entanto, através da fresta por onde observou o mundo, construiu uma poética de seguidores ( entre eles os imagistas Wallace Stevens e William Carlos Williams ), sob vigilante economia composicional.
Foi também uma visionária, ao definir pela força do seu gênio, o que jamais conseguiu tocar ou ver: "Nunca vi um campo de urzes. / Também nunca vi o mar. / No entanto sei a urze como é, / Posso a onda imaginar. / Nunca estive no céu, / Nem vi Deus. Todavia / Conheço o sítio, como se / tivesse em mãos um guia. " Sua existência gastou-a no pequeno lugar Amherst, Estado de Massachusetts, na América do Norte, onde faleceu ninguém, no ano de l886. Assume esta opção de voluntário silêncio, quem pôde afirmar num epigrama, premonitoriamente - partir é tudo o que do céu sabemos, e do inferno basta aqui -. A poetisa cumpriu ali o seu apostolado, escrevendo uma lírica de corajosa exceção, para só depois impressionar gerações. Bem depois, quando já não servem os aplausos, a que ela chamaria de ilusão prejudicial.
Publicado no Diário de Pernambuco em 17 de junho de 2004.