sábado, 14 de janeiro de 2006

UM CONCERTO

No derradeiro instante de 2005, a Orquestra Sinfônica do maestro e poeta Francis Hime invadiu muitos corações, ao apresentar pela televisão inúmeros sucessos da MPB, dedicados ao Rio de Janeiro. Movido pelo inigualável concerto localizei nos meus arquivos, já meio carcomidas, algumas impressões sobre o acuado Rio, guardadas por mim , creio, há dois ou três finais de ano, e sem quaisquer propósitos.
Constam dessas anotações: o bom Deus, às vezes, oferece encantos na infância prevenindo a velhice com desamparo. A afirmativa pode ter cotejo com o Rio de Janeiro, há pouco visitado por mim e Kilma. Numa tarde fui andar e ver a terra de artistas de todos os matizes. Estive perto da Academia Brasileira de Letras, mas não pude conhecê-la, por ser tempo de recesso dos seus trabalhos acadêmicos. Percorri a lendária Rua do Ouvidor, infestada de lojas, inclusive as Americanas.
Súbito, pensei nos compositores dos anos 20 e 30 do novecentos. Em recanto sombrio localizei a estátua de Pixinguinha e seu velho sax. Depois, desloquei-me até Vila Isabel, chão de permanências do Noel. A casa onde consumiu sua pouca vida cedeu lugar ao Edifício Noel Rosa. “Nessa solidão sem fim”, e impulsionado pela mão da fantasia decidi reunir os dois artistas. Ombreei suas estátuas, colocando-me entre ambas, a fim de pedir que os mestres cantassem ou tocassem alguma coisa. Do pretão do sax, cara-de-cão, ouvi o Carinhoso. Noel, solitário, entre a desmemória e a imponência do prédio que leva seu nome, saiu com a famosa “O mundo me condena / mas ninguém tem pena” etc. etc. Já tarde, e respirando ameaças, retornei à atmosfera dos glorificados pela literatura. Cheguei à Rua Cosme Velho nº 196, onde viveu Machado e sua eterna Carolina. Desolado, constatei: a casa também foi demolida.
Terminei minha peregrinação no Catete de Vargas, em diminuta livraria, colada ao espaço do histórico suicídio. Numa prateleira perto da entrada, deparei com um volume de A Cabeça no Fundo do Entulho (Editora Campo das Letras), romance do extraordinário Fernando Monteiro, autor aplaudido por aquelas plagas. Uma alegria pra quem está longe de sua terra e sozinho. Do alto, o redentor parecia abraçar-me e advertir com seu bom gesto, espiando distante, qual um tibetano.
Eis o Rio de Janeiro, secular e necessitado de quem o escute a pedir socorros (o artista Francis Hime fez a sua parte). Com naturais encantos, o Rio é mesmo uma pétala no ar crepitante, a tecer em muitas cores o seu inacabado trancelim.
Sabe-se dele histórias inumeráveis, principalmente as de amor, como a contada em prosaicos versos pelo poeta Manuel Bandeira. Um tal Misael, esquivando-se à galhofa pública, causada pelas traições de Maria Elvira, a quem tirou “da má vida”, com ela peregrinou, ou melhor, “morou no Estácio, Rocha, Catete, Olaria, Bom Sucesso, Encantado, Lavradio, Inválidos”, etc. Até que, “privado de sentidos e de inteligência, matou-a com seis tiros, e a polícia foi encontrá-la caída em decúbito dorsal, vestida de organdi azul”. Viram?
Ao mesmo tempo desvairada e bela, a cidade fundada por Estácio de Sá, não voltará (equívoco meu) a inspirar letra de músicas, como o seguinte fragmento do hinário bossanovista: "Minha alma canta /Vejo o Rio de Janeiro". Nos atuais dias, ao seu autor, o maestro Antônio Carlos Jobim, seria imposto dizer "Minha alma treme".
A cena carioca de agora demonstra que o Estado perde em poder contra o aço e a pólvora em mãos clandestinas e desesperançadas. E resultam inúteis até as súplicas do inspirado Milton Nascimento, na sua nova letra dirigida a São Sebastião, patrono do Rio: "Sebastian, Sebastião / Diante da tua imagem / Tão castigada e tão bela / Penso na tua cidade / Peço que olhes por ela". Assim, ao povo fluminense e ao de toda a nação brasileira, só têm restado minguar em fé, posto haver indícios de que, demonstrada a quase ineficácia estatal contra a brutalidade (conseqüência da mentira econômica e social de muitas décadas), o mal, logo mais, vencerá o bem.


Publicado no Diário de Pernambuco em 14/01/2006.