sábado, 1 de novembro de 2014
CATERPILA
O amor pelo Recife está sendo vencido pela guerra da ambição caterpilar. Nele, centenária arquitetura anoitece malquerida, e manhãzinha sumiu.
O “progresso” quer assim. Sonhadores e românticos são os que reprovam isso. O poeta Manuel Bandeira foi um advinho dos futuros e frios administradores, apenas voltados para o “novo”, sem qualquer consideração à beleza de raízes.
Lamenta o escritor em seu poema “Evocação do Recife”, no livro Libertinagem: [...] “Rua da União.../ Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância./ Rua do Sol/ (Tenho medo que hoje se chame do Dr. Fulano de Tal)”.
Ora, se tantas ruas têm hoje seu nome trocado, pior sina alcançou edifícios e residências seculares, demolidos por arquitetos e poderosos que pretendem já – alugar o céu.
E na quase desaparecida “Veneza brasileira”, seu patrimônio cede ao esplendor inconsequente dos mandantes do “Novo Recife”, a quem a real história certamente negará brilho.
Enquanto alinho estas frases, chegam-me ao pensamento os desprezados viralatas de lá fora. Tantos, eles peregrinam e quase falam a rogar socorro, vítimas de nenhum e humano gesto, entre as mesmas ruas e paredes aqui comentadas.
Se amparados, seriam capazes de ensino igual ao da cadelinha Nina, mostrado neste fragmento de um poema do livro Ardentias: “Abaixa os irrisonhos/ Ao nível das pedras/ E embaça-lhes os tormentos/ Com beijos - ou lições – Dissimuladas./ Céu dos outros,/ E o amor nunca esvaído./ É isso a mínima odalisca:/ Monástica num silêncio de Sé/ Feito o “pudor dos que não pedem/ Nada”.
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