Não faz tempo, assisti ao filme Segunda-Feira ao Sol, dirigido por Fernando Leon, que tem como enfoque o desatino provocado pelos excessos da globalização. O homem sozinho e desolado, a falência do emprego e a destruição de valores sagrados, como a família e os bens ético-culturais, são as maiores vítimas de tais destroços, apontadas no filme. Acredito estar na reflexão deste espetáculo do cinema, o gancho a nortear o presente texto, já há dias ideado.
Na atual cena planetária, de características pragmáticas, algumas das artes sofreram e ainda sofrem o descaso do apetite consumista, e nesse contexto a poesia vem a ser atividade ou “mercadoria” de nenhum valor, inútil para muitos.
Não é de agora que a arte de Homero é brutalizada e padece vicissitudes de determinadas épocas. Mesmo assim, retorna sempre ao seu lugar, o de conectar-se com o ser humano, para a comunhão sensorial da beleza.
Como os indiferentes e céticos ao papel da poesia no mundo, também existem os que a defendem e divulgam em qualquer tempo. Em Pernambuco, desde o início do ano, os ventos sopram favoráveis à poética, menos por ação de mecenas, e mais pelo decidido empenho de instituições públicas do Estado e município do Recife, independente de macartismos políticos.
Num gesto de desprendimento, o poeta Marcus Accioly, presidente do Conselho Estadual de Cultura, em parceria com a CEPE, está publicando mensalmente, no suplemento cultura do Diário Oficial do Estado, poema, resenha e foto dos poetas de sua geração. Para divulgar a poesia, Accioly não está dando relevância a eventuais injustiças, além de ter de administrar com paciência idiossincrasias que nunca deixaram de existir nos meios artísticos e literários.
A Fundação de Cultura da Cidade de Recife, com o trabalho exemplar de Heloísa Arcoverde, Pedro Américo de Farias, Everardo Norões e José Carlos Targino, fez publicar recentemente a coletânea Estação Recife, um livro de bonito feitio e acabamento, trazendo poemas de César Leal, Jaci Bezerra, Ângelo Monteiro, Janice Japiassu, Alberto Cunha Melo, num total de dez autores, em plena combustão criadora.
A antologia foi lançada no Teatro de Santa Isabel, em 23 de março, com declamação dos poemas, iluminados pela música dos clássicos Beethoven, Schubert e Franz von Supée, executada pela Orquestra Sinfônica do Recife, sob a regência do excelente maestro Osman Giuseppe Gioia.
Na ocasião, alegre pelo brilho do acontecimento artístico, assaltaram-me inexplicavelmente, por mais de uma vez, os versos de Bertolt Brecht: “As florestas crescem ainda/ Os campos produzem ainda/ As cidades ainda estão de pé/ Os homens respiram ainda”.
Convicto, diria afinal: música e poesia, sem pátria ou sectarismos que as condicionem, não desaparecerão – nunca.
Publicado no Diário de Pernambuco em 03/04/2004.
sábado, 3 de abril de 2004
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