domingo, 1 de dezembro de 2013
O CÃO SEM PLUMAS
Perto do anoitecer, quando gatos têm safira nos olhos, costumo apreciar o que resta de encantos no velho Capibaribe. E certa vez presenciei um fato, transformando-o em poesia. Observava no rio suas lágrimas sem olhos e, à pequena distância, uma mendiga ria e falava muito. Principalmente quando passava alguém de ar sisudo. Imaginei estar aquele ser maluco pronunciando os versos iniciais deste meu poemeto, UM TRAPO LINDO, ali mesmo concluído: “– Todo infeliz adia Deus –/ Dizia a mostrar-se na marquise/ Sob a carícia de um velho pente./ E na morfina desses voos/ Parecia retirar damascos/ Da ruína.” O rio motivou a João Cabral de Melo Neto escrever o livro cujo título nomina o presente texto. A obra é de 1949-50, dedicada a Joaquim Cardozo, poeta e arquiteto (uma estátua esquecida sobre a ponte Maurício de Nassau). Àquela época, certamente, o Capibaribe era menos degradado, e representava a fonte de humildes pescadores e peixes, entre eles – o boi. Agora, quase nada oferece. Nem às garças, belíssimas bailarinas, a vagarem de manhã à noite na podridão; nem aos poetas, buscadores do Canto, nas margens do peregrino fluvial de 64 anos atrás, quando o seu gemer parecia menor. Então, Cabral foi premonitório: o pior viria. Há poucos dias, “O cão” da alegoria cabralina foi mostrado na televisão, sob o impacto de sofrimentos. Os cenários deixaram-me triste, até o momento de escrever estas linhas. Então, registro aqui o meu apelo aos administradores da chamada coisa pública. Pensem, ou melhor, dediquem uma UTI ao Capibaribe. Este rogo também faço em nome do imenso poeta João Cabral de Melo Neto, atualmente paralisado e emudecido num retrato em pedra frente à Rua da Aurora, com mão quebrada pela violência urbana, além de praticamente ignorado por todos, todos. Inspirado no volteador aquático, escreveu Cabral há mais de seis décadas: “Aquele rio/ era como um cão sem plumas./ Nada sabia da chuva azul,/ da fonte cor de rosa,/ da água do copo de água,/ da água de cântaro,/ dos peixes de água,/ da brisa na água.” Em “O Cão Sem Plumas”, obra intencionalmente protetora e de teor coloquial, seu autor atinge alturas comparáveis à de um Oswaldo Goeldi, 1895/1961. Este, trabalhando em xilogravura, conseguiu “uma magia impressa e uma visão própria do mundo”, dando fulgor aos “animais domésticos, cenas de rua com homens anônimos, trabalhadores” [...] Estas citações estão em “Luz Domada”, artigo de fôlego do artista plástico Plínio Palhano, recentemente publicado em jornal pernambucano, o Jornal do Commercio. Acabei exaltando literatura em um trabalho de reivindicação e esperança. Contudo, acredito, eles merecem: o rio Capibaribe e o poeta João Cabral de Melo Neto.
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