sexta-feira, 28 de agosto de 1998

ESPAÇO PASÁRGADA

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Meus amigos, pouco a pouco a ordem econômica estabelecida nos têm dispersado. Isto é uma constatação em toda parte.

De repente cada um se flagra aprendiz de atleta na onda da competitividade; cada um se percebe recluso, só, ante a perversidade das incertezas; cada um se repensa pelo imperativo dos estranhos ditames do processo que aí está, ao ponto de, muitas vezes, renunciar ou esmorecer quanto à preservação do culto à palavra artística.

Meus amigos, é oportuno revê-los para lhes pedir: reajam contra o germe do desânimo, provocado pelo caminho mundificado do neoliberalismo. Com ação, é preciso estar atentos e contrários às conseqüências do delírio desta política, que resulta no desamparo de tantos, na discórdia, na traição, nas avançadas estatísticas do desemprego e, conseqüentemente, na inversão dos legítimos valores éticos, morais e estéticos, conseguida com a imposta adoração do que é banal e inconseqüente.

Não se deixem desanimar ante o objetivo do novo sistema planetário, que se traduz na fragilização ou mesmo na extinção do ideal do escritor sério e livre, ao lhe dar as costas com as ações da indiferença.

Subam – com a imaginação vocês podem. Subam até aonde for a andaimaria da intolerância global. Ressurjam como novos quixotes, contra os moinhos do lucro exacerbado, único objetivo dos que detêm o poder mercadológico, em qualquer parte. À falta de luz, invoquem-se trabalhadores no breu, à ordem de Prometeu, o portador do fogo.

Afinal, mirem-se (expressão de Chico Buarque) em Dante. Ele não esmoreceu nem se acovardou. A maldade dos dominadores do seu tempo, contra quase todos, não foi muito diferente da semeada pelos de agora. Sem recuos, ele denunciou a infâmia em sua monumental e “Divina” obra.

Não esmoreçam e procurem-se, meus amigos. Continuem escrevendo, sejam quais forem as táticas e técnicas contra vocês utilizadas pelo novo poder que rechaça o mundo neste fim de século.

Inflamem-se em Osman Lins, mestre do romance, ao afirmar: “A palavra é a bala dos desarmados”.

Se os verdadeiros poetas desistirem ou se intimidarem, os homens, principalmente os mais desprotegidos, estarão sem voz, órfãos e sozinhos.

Se os verdadeiros artistas vacilarem, só restarão os que contam a história a partir de uma ótica vetusta, como quase sempre foi, ou através do simulacro e da inverossimilhança, instrumento dos que servem, sem riscos, valendo-se da adulação.



(Discurso dirigido a poetas no espaço Espaço Pasárgada em 27 de agosto de 1998).