quarta-feira, 13 de abril de 2016

VIANDANTES DA ARTE

Li e reli os cinquenta e seis poemas do livro “O Que Ficou da Fotografia”, criados por Socorro Nunes. Aventuro-me sobre o cintilar do seu trabalho, onde encontro verossímil luz, para dele afirmar o que adiante se vai ler. No espólio poético de Emily Dickinson, encontram-se até alguns insultos dirigidos à sua arte, não propensa a enquadramentos – lírico, simbólico ou moderno. O recolhimento da artesã, sem escola ou rótulo, autorizou-a escrever “Morri pela Beleza – mas mal eu/ Na tumba me acomodara,/ um que pela Verdade então morrera/ A meu lado se deitava''./ […] “E quais na noite os que se encontram falam –/ De Quarto a Quarto a gente conversou -/ Até que o musgo veio aos nossos lábios –/ E os nossos nomes – tapou”. Igual acuidade sensorial é flagrada na poesia da ilustre brasileira Cecília Meirelles, como declarado por estetas seus contemporâneos, e os que vieram depois. Presente entre eles, atendeu a rigores de métrica e rima, mas somente enquanto o quis. Original e já respeitada, a autora não vacilou em escrever estes versos fotográficos e coloquiais, certamente autorizada pelo vaticínio dos anos: “Eu não tinha este rosto de hoje,/ assim calmo, assim triste, assim magro,/ nem estes olhos tão vazios,/ nem o lábio amargo”. [...] “Eu não dei por esta mudança,/ tão simples, tão certa, tão fácil:/ – Em que espelho ficou perdida/ a minha face?”. Conhecendo-a pouco, nem sei o instrumental, ou “ferramenta” intelectual da poetisa Socorro Nunes, que a privilegiam na composição de poemas viscerais e cotidianamente fílmicos, como os do seu livro em comento. Sei, no entanto: em poesia, ela tem um projeto inafeito à pressa (ganância de tantos nos dias atuais). Socorro escreve poemas similares ao vento – ele não fala, conduz. Pelo compromisso da sua arte, posso reuní-la aos mitos acima, quando leio em seu novo livro “Esculpi a palavra/ retirei os excessos/ inclui as exceções/ aparei as sobras/ ampliei os gestos/ e a beijei/ com um novo/ sotaque/”. Na fruição deste trabalho, a arte em “letras” atavia-se com pulsantes e discretas metáforas. E ambas estão sempre onde o comum aparente confunde a miopia... E tudo porque: “uma fotografia/ duas vidas duas faces duas esperanças/ duas formas de nascer juntos/ entre as pedras do mesmo rio/ onde pescavam o futuro”. Nova e rebelde, esta poesia tem uma dicção a me permitir vôos sobre os “Cadernos” do francês Paul Valéry, conforme se lê neste seu Proselitismo: [...] “Não temos vontade de conquistar/ ninguém quando nos damos conta/ de tudo o que é preciso/ conquistar primeiro dentro de/ nós mesmos”. (Tradução: Augusto de Campos).