quinta-feira, 4 de dezembro de 2003

CESÁRIO VERDE

Comentar obras literárias é mais uma alegria para nós, na medida em que chamam a atenção, ou conseguem maravilhar nosso projeto estético, independentemente do tempo cronológico de sua criação. Assim, podemos estar à vontade para falar da poesia de um autor que não precisa de reconhecimentos tardios, mesmo porque já dispõe de lugar garantido sob as vigas do eterno.
Cesário Verde, poeta português de existência meteórica, é a quem estamos nos referindo. Viveu apenas 31 anos, a partir de 1855, quase sem sair do lugar lusitano Linda-a-Pastora, um nome encantador.
Poderão alguns apontar como sem nenhum risco, avaliar livro cuja permanência está assegurada por mais de século. Lembramos a estes: não ambicionando espaço na crítica literária, permitimo-nos falar apenas de obra que instigue nosso interesse.
Nestas notas, por exemplo, nossa intenção é apontar alguns dos grandes momentos da poesia mágica e prosaica desse autor, ignorado enquanto vivo, porém capaz de causar espanto e indicar caminhos a um póstero seu, Fernando Pessoa.
Cesário era filho de pai voltado para negócios, e neles o vate se envolveu de sol a sol, excetuando-se por isso à bestial regra de que poeta vive de e nas nuvens.
Talvez pela intensa labuta, talvez por opção, não participou de capelas literárias. Deve aí estar a indiferença do seu tempo à obra do autor, contra a qual não falaram bem Teófilo Braga e Ramalho Ortigão, pontífices das letras de Portugal dos oitocentos. O alheamento de contemporâneos à poesia de Cesário, pode ter explicação na sua estranha dicção, oposta à tradição, não vocacionada a infortunar o cânone estabelecido, para dar vez à grita dos contrários à imobilidade da arte.
Cesário muito ousou em sua poética, quantitativamente diminuta e excessivamente realista e por isso foi olhado com restrição pelos padrões ou arquétipos da época.
No mesmo tempo de sua existência e em lugares distintos, amargaram igual estrangeirismo Charles Beaudelaire, Isidore Ducasse (o Lautréamont), Arthur Rimbaud e Sousândrade, para só registrar alguns nomes.
Única obra do poeta, editada depois de sua morte, aos 31 anos de idade, O Livro de Cesário Verde, indiferente ao etéreo, preferiu focar a cena de rua, quando o suor goteja, como nestes versos, já trilhando as pegadas do surreal: "Num trem de praça arengam dois dentistas; / Um trôpego arlequim braceja numas andas; / Os querubins do lar flutuam nas varandas; / Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas."
Favorável ao movimento de intelectuais portugueses, conhecido como A Questão Coimbrã, Cesário negou-se ao romantismo de pacto com o ornamental e sublime. Preferiu a escola realista, para ver o homem como protagonista de um tempo de agonias e desigualdades sociais, numa poesia de denúncia, mas sem afetação panfletária.
Dirigindo-se ao povo, no fragmento adiante, ele consegue inquietar a ordem e pintar através de palavras, como os que utilizam geniais pincéis: "No pano cru rasgado das camisas / Uma bandeira penso que transluz! / Com ela sofres, bebes, agonizas; / Listões de vinho lançam-lhe divisas, / E os suspensórios traçam-lhe uma cruz!"
Quase sempre preferiu o verso medido, decassílabo ou alexandrino, mas revestido de rimas e motivos incomuns, a ponto de parecer ridículo à conduta de então e ao vigente arremedo clássico.
Até diante da musa, o falar de Cesário é insólito, domando excessos do coração - queda e perdição de muitos. "Aquela cujo amor me causa alguma pena / Põe o chapéu ao lado, abre o cabelo à banda, / E com a forte voz cantada com que ordena / Lembra-me, de manhã, quando nas praias anda, / Por entre o campo e o mar, bucólica, morena, / Uma pastora audaz da religiosa Irlanda."
Dá para notar nessa amostragem, que o poeta procura parceria com o futuro, a poesia moderna, também ensaiada pelos autores mencionados, quase todos seus desconhecidos, entrincheirados em anônima rebelião da palavra. Eles estão voltados para os meios anormais de expressão poética (o esplendor da mentira), buscados na "ordem sacrificada, na repentinidade brutal, na poesia despoetizada, no assalto inesperado", como alude o teórico Hugo Friedrich, em seu Estrutura da Lírica Moderna.
Não sem motivos, Cesário influenciou poetas de língua portuguesa, pré-modernos e modernos, a exemplo de Augusto dos Anjos, Fernando Pessoa e Vinícius.
O poema científico de Augusto, ao invés de afastá-lo da massa de leitores, beneficiou-se de um vocabulário coloquial, como a dizer intimamente. Tal vocabulário foi localizado em Cesário, para capacitar o poeta do EU em fazer cativo de sua poesia o público mais comum. Durante décadas e décadas, já se ouviu na voz do povo a confissão de Augusto: "Ah, um urubu pousou na minha sorte! / Também, das diatomáceas da lagoa / A criptógama cápsula se esbroa / Ao contato de bronca destra forte!"
Sem arroubos científicos, mas na mesma e confessional fala, Cesário ensaia: "Eu hei de lhe falar lugubremente / Do meu amor enorme e massacrado. / Falar-lhe com a luz e a fé do crente."
Uma outra característica da poesia de Augusto dos Anjos é o uso de palavras no superlativo: "Tome, Doutor, esta tesoura, e ... corte / Minha singularíssima pessoa."
Muitas vezes a lírica verdiana recorre à semelhante ênfase, numa prova de sua presença na criação do poeta paraibano: [...] "E nas águas mansíssimas do lago." [...] "Nas tuas formosíssimas madeixas." [...] "E tristíssima Helena, com verdade," etc.
Vinícius de Moraes no poema A Hora Íntima, resolveu intertextualizar Cesário: "Quem pagará o enterro e as flores / Se eu me morrer de amores?" No mesmo clima, lê-se de Cesário Verde, em Flores Velhas: "E quando me envolveu a noite, noite fria, / Eu trouxe do jardim duas saudades roxas / E vim a meditar em quem me cerraria, / Depois de eu me morrer, as pálpebras já frouxas."
A ensaística e a poesia de Fernando Pessoa cintilam em amor, influência e respeito ao poeta que o antecedeu. Contemplativo diz Cesário: "Nas nossas ruas, ao anoitecer, / Há tal soturnidade, há tal melancolia, / Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia / Despertam-me um desejo absurdo de sofrer." Em igual tonalidade, Pessoa lamenta: "Cada rua é um canal de uma veneza de tédios / E que misterioso o fundo unânime das ruas, / Das ruas ao cair da noite, ó Cesário Verde, ó Mestre, / Ó do " Sentimento de um Ocidental!"
Autor de único livro, Cesário Verde padeceu o silêncio de coetâneos, quando escreveu sua poesia, com visíveis marcas na obra vindoura de autores da sua magnitude. Dele eu diria - teve uma vida voada, a fazer dos olhos portas do céu e enxergar nos gigantes miniaturas do não.
Sem alvoroço, o autor lusitano faz lembrar escritores compulsivos e de muitas obras, que no presente, catando gota de apressada glória, esquecem de fortalecê-las para o futuro, quando estiverem sozinhas.


Publicado no Diário de Pernambuco em 04 de dezembro de 2003.

sexta-feira, 1 de agosto de 2003

E SOUSÂNDRADE?

A 9 de julho de 1832, nos arredores do município de Guimarães, Estado do Maranhão, nascia Joaquim de Sousa Andrade, ou Sousa-Andrade, ou ainda Sousandrade. Afinal, prevaleceu o proparoxítono Sousândrade, para assim ficar definitivamente conhecido o poeta maranhense.
Cronologicamente, ele pertenceu à segunda geração romântica brasileira. No entanto, a dissonância da sua poesia, bem cedo o fez estranho à dicção poética de seus coevos, cujo poetar buscava alimento em lavoura idêntica e abundante. Por destino, e contra o fácil “sim”, Sousândrade defendeu-se com o jejum do “não”, entregando-se à criação de uma arte assimétrica, mas de muita contenção e essencialidade.
À convivência nas tabernas da tuberculose importada, e às borboletas inocentes dos poetas de então, e de pouca estrada, Sousândrade se opôs. Para criar, ao invés de aconselhar-se na estética de Musset e Chateaubriand (nomes exponenciais do romantismo francês), escolheu, já ali, arengar com a usura de Wall Street, que dava sinais de suas garras. No livro “Guesa Errante”, Canto Décimo, faz denúncia de um inferno financeiro, ou seja, “o inferno de Wall Street”, movido por argentários venais, escondidos em mantificação religiosa, para depois ofender e espoliar, com Deus ou sem ele. A respeito destes personagens, escreveu o poeta: “A bíblia da família à noite é lida; / Aos sons do piano os hinos entoados, / E a paz e o chefe da nação querida / São na propriedade abençoados. / Mas no outro dia cedo a praça, o stock, / Sempre acesas crateras do negócio, / O assassínio, o audaz roubo, o divórcio, / Ao smart Yankee astuto, abre New York.”
Fosse Ezra Pound brasileiro, os seus “Cantares”, iniciados em 1917, levariam a pensar que estivessem influenciados pelo “Guesa” de Sousândrade, escrito a partir de 1877. Isto, pela similitude que têm os versos acima, com alguns dos Cantos de Pound, a exemplo deste excerto, de idêntica denúncia: “Com usura nenhum homem tem boa casa / toda em pedra, nenhum Paraíso na parede do seu templo / Com usura se aparta o canteiro do seu mármore / o tecelão é separado do tear pela usura / A lã não aparece no mercado / o camponês não come do seu trigo”
Seja como for, o poeta maranhense foi um dos precursores da poesia moderna no mundo, tendo como possível predecessor o peregrino Walt Whitman, autor das “Folhas de Relva”. No Brasil, por certo, as experiências lingüísticas de Sousândrade, são o arquétipo ou a preparação para Mário de Andrade inventar, no futuro, o “Macunaíma”, e Oswald de Andrade os seus “Manifestos”. Contudo, durante muitos anos a “aviação poética” sousandradina esteve embaçada nas nuvens da indiferença e do preconceito, até passar a nevasca, dando vez à aterrissagem do seu canto em chão de merecida claridade.
Limitar-me a um pequeno enfoque biobibliográfico deste inquieto criador foi minha real intenção, considerando as normais contenções de espaços em jornal, para a publicação de ensaios desta abordagem. Enfim, seria descabido nestes dias de minguada crítica literária pelos veículos da comunicação escrita, pretender estender-me numa impressão analítica da obra complexa e instigante de Sousândrade. Esta missão, começada exemplarmente por Augusto e Haroldo de Campos, Fausto Cunha, Luis Costa Lima e alguns outros, seria tarefa, creio, de mestres em letras, fazendo incluir nos currículos escolares e universitários, a poesia de Sousândrade - polissêmica e incendiária de limitações. É urgente que, por essa via da informação, ou similares, chegue aos interessados o conhecimento da obra numerosa do artista, dando-se destaque a “Harpas Selvagens”, “Eólias”, “Guesa Errante”, “Tatuturema”, “Novo Éden” e “Harpas de Ouro”.
Não raro, a existência de grandes nomes está tomada por situações, muitas vezes buscadas à fabulação. Com este poeta não foi diferente. E da fantasia ao fato concreto registra-se dele este vaticínio, quando da edição de sua obra maior: “Ouvi dizer já por duas vezes que o Guesa Errante será lido cinqüenta anos depois; entristeci – decepção de quem escreve cinqüenta anos antes.”
Em posição de muito avanço para o tempo por ele vivido, Sousândrade previu o futuro da poesia. Demonstram isso as ousadas técnicas de composição, utilizadas por poetas de gerações epígonas. Alguns deles, penso, influenciados pelo autor de “Novo Éden”. Neste sentido, é oportuna a observação do crítico literário Fausto Cunha: “As direções tomadas pela poesia moderna, valorizando a criação no absurdo e a violentação do organismo verbal, conferiram a Sousândrade o direito de figurar como um precursor genial ou quase isso (Romantismo no Brasil).”
Estudos sistemáticos ainda haverão de ser realizados sobre a escrita sousandradina, para derramar luz em seus versos eletrizantes, que são “tomadas cinematográficas”, como estes, iguais a ardentias: “Vede a tremente / Ondulação das malhas luminosas / Num relâmpago, o tigre atrás da corça.” (Guesa, Canto V).
O fenômeno de sua arte está a exigir que se explique a necessidade no artista de subverter filologicamente, num tempo de absoluta ordem estética. Há de se mostrar em Sousândrade, com mais acuidade, a procura sem descanso numa época irressonante, da beleza “caótica e aparentemente destroçada”. Para isso o poeta recorria a hibridismos, fazendo uso de línguas estranhas ao português, mas que conduzissem a um fim harmônico: “sobre-rum-nadam fiends, rascáls, / Post war Jews, Jesuítas, Buffs / Que decidem de uma nação / A cancan ! ... e os èros / Homeros / De rir servem, não de lição.”
Ainda reclama estudos o uso imoderado pelo poeta de termos compostos (Lírio-luz, olhos-alma, flores-noivas, sul-meteoros, etc), de cujo experimento ele procurava alcançar a sonoridade das palavras. E, muitas vezes, na ânsia obsessiva pela música e revolução ortográfica, surpreendia a si próprio com a maestria lírica de versos assim:

“Onde vivi, que estou como os que sobem
Tontos do abismo à luz dos oceanos?”
...
“Vê-se como tão rápido anoiteço,
Como de sombra e solidão me enluto.”

O “Guesa Errante”, sua obra mais importante, baseou-se na lenda indígena do mesmo nome, ou seja, uma criança que é subtraída de seus pais para viver a sorte do deus do sol, Bochica. Educada com esmero, aos 15 anos era morta a flechadas, arrancando-se-lhe o coração em oferenda ao sol. A cerimônia estaria sempre a repetir-se com similares ritos e o sacrifício de outra criança, em substituição à que fora morta.
Um vidente, pode-se dizer de Sousândrade. Sua obra “Guesa Errante”, escrita quando ele fazia périplos pelo mundo (deambulou entre a Europa e os Estados Unidos, onde residiu por muitos anos), tem algumas semelhanças com o seu próprio destino. A criança da lenda vivia as regalias do fausto para morrer aos 15 anos de idade. Sousândrade, de existência afortunada e longa, morreu em São Luís, abandonado e na miséria aos 70 anos, no dia 21 de abril de 1902. Há cem anos? Oh, minha pátria de nus e quase nenhuma memória. Do seu desleixo por filhos bons e próceres, confesse pelo menos: - se o coração reflete, a alma está de luto...


Publicado no Diário de Pernambuco em 01 de agosto de 2003.

quarta-feira, 16 de abril de 2003

PROSCRIÇÃO BUSCADA

No recente episódio de devastação e ódio, patrocinado por acordo anglo-americano, cada um viveu o seu momento de saturação e desânimo, perante a desfaçatez e a prepotência bélica, de cuja parceria o mal, travestido no bem, se quer impor sem o dispêndio do correspondente ônus moral e ético. Iniciada em março, a barbárie foi se repetindo e, até vir a capitulação do mais débil, os que acompanharam os fatos, nada podendo em favor de Bagdá em chamas, viveram o sentimento de choro e esconjuro.
Como os demais, amargamos nossa parcela de dor, indo inclusive buscar nos livros o esquecimento momentâneo do horror beligerante. Não por acaso debruçamo-nos na releitura de A Terra Desolada para constatar logo em seu início, que nem sempre “abril é o mais cruel dos meses”. E em qualquer tempo, portanto, a brutalidade pode reproduzir Flebas, o Fenício, que a soçobrar “esqueceu o grito das gaivotas e o marulho das vagas e os lucros e os prejuízos”. O poema de Eliot também não por acaso, levou-nos a pensar no poeta José Carlos Targino, criador de pouca, mas marcante e maior poesia, assunto e real propósito destas linhas.
Escrevendo desde os anos 60, Targino produziu dois livros – Sortilégios e Êxtase, e deles extrai poemas para eventuais apresentações de sua poética em antologias, razão de nos parecer escassa (por opção e rigor dele) a sua poesia. Por onde andará José Carlos Targino e que destino deu ao seu compromisso com a poesia, é a indagação de muitos.
Visto como um poeta pouco acessível, ou mesmo difícil, ele se defende: “É possível que o fato de ter ancorado primeiro em portos menos contaminados por dicções tradicionalistas, românticas ou parnasianas, mergulhando com entusiasmo nos vastos oceanos do verso livre, cultivando maravilhado os surrealistas, Drummond, Eliot, Dylan Thomas, todos “difíceis”, tenha erguido barreiras nada desprezíveis entre mim e os meus leitores”.
Neste depoimento de 1997, inserido na apresentação que fez sobre ele próprio e sua criação literária, quando editados alguns dos seus poemas nos Cadernos de Poesia, idealizados pelo Governo do Estado de Pernambuco, Targino deu, sem rodeios, as explicações possíveis a respeito de seus textos poéticos e do comportamento anacoreta por ele assumido. Aí pode estar a decisão do poeta, quanto ao seu distanciamento dos meios literários do Recife, principalmente quando percebe o escoar quase completo de uma crítica literária empenhada no ofício da análise séria de obras concebidas em padrões estéticos igualmente sérios.
Tudo isso, sem contar com o descaso do mercado editorial ante os poetas. Seus livros, todos sabem, com raras exceções, estão condenados ao índex, castigo que era imposto pela igreja católica, em tempos imemoriais, aos livros proibidos de circulação.
Estas regras de indiferença e visível esgar, não há dúvidas, acabam por imotivar outros escritores de poesia, tornando-os mesmo solipsistas, embora neles nada justifique o abandono daquilo que se estreita e procura o mais profundo da alma. Nada autoriza ao poeta Targino esconder do mundo e do seu tempo, a poesia que escreve: “Jovens e velhos despertam para o dia enlutado. / Pois o tempo, / Imperioso como o verdugo armado, / Marcha com a morte ao pé da tumba. / E ao pé da tumba todos mergulham para sempre.”
Não pode tremer ou temer nada, quem há mais de trinta anos escreveu versos que lhe conferem o dom da triste premonição: “Quando isso acontecer, recolha-se em um abrigo. / Zombe das feras, elas ficarão à distância; / Olhe com amor seus utensílios. / O campo de pouso certamente ruirá, / Os conquistadores não resistirão a tanto; / As constelações mudarão seu curso, / E as lunetas dobrar-se-ão ante o olhar das aves; / As mordaças ainda cederão, inúteis / como a nudez do vento num lago prateado.”
Aventuramos dizer: o fragmento tem comparativo com o “Sermão do Fogo” de T.S. Eliot. Está na mesma atmosfera de “Vinte e Quatro Anos” de Dylan Thomas.
A poesia de José Carlos Targino (“Uma Voz, Duas Vozes”, “Como Espiral”, “Ufo”, etc.) recebe o eco, além de outros, destes dois poetas de língua inglesa, ambos a exigirem do leitor de poesia, extraordinária equipagem intelectual, capaz de decifrar na sua invenção poemática uma recorrência constante às mais diversas fontes de erudição, para a construção final de versos imageticamente difíceis. Neste universo de nítidas afinidades, não é incomum se achar na poesia de Targino palavras como fauno, elmo, falcão, de quase nenhum uso na poética brasileira, notadamente a partir do novecentos (1922), quando qualquer sintoma de estrangeirismos foi afastado da dicção literária nacional.
Não queremos assim apontar enganos na escrita estética do autor. Os poetas de vôos pagam um alto preço no seu tempo, quando escolhem caminhos que não aceitam o puro chão, ou seja, a travessia comum da soberba inútil. E aí, todos os meios são válidos para o sonho do indizível. Foi assim com Sousândrade, autor de O Guesa, livro pensado no apogeu do nosso romantismo de segunda mão. Foi assim com Gerard Monley Hopkins, estranho e incompreendido, a balbuciar vacilante frente à indiferença do seu tempo: “As aves constroem. Não eu; em lidas infelizes, / Eunuco do tempo, não crio obra que viva. / Senhor da vida, envia chuva a minhas raízes”.
Ao contrário de Hopkins e em vista da insensibilidade dos atuais e pobres dias, mirando longe, Targino afirma com altivez: “Não me convenço de nada / que esteja perto da vista, / mas sei de estrelas tão altas / que a ilusão não avista.”
De resto, um oportuno registro: o desdobramento do assunto sobre o isolamento voluntário de José Carlos Targino, levou-nos a pensar na mesma e insular opção assumida por três outros poetas do Recife, de igual importância - Gladstone Vieira Belo, José Luiz de Almeida Melo e Domingos Alexandre. Lamentamos que assim tenha de ser, sobretudo agora, quando cada lugar do mundo, sob cinzas, mais necessita do canto de seus poetas, como no breu a tatear – os privados de archotes.


Publicado no Diário de Pernambuco em 16 de abril de 2003.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2003

DE UMA ÁRVORE

Concisão é uma das características da poesia de Fabrício Carpi Nejar, natural de Caxias do Sul (RS) e colaborador assíduo do jornal literário Rascunho, produzido em Santa Catarina. Pensei assim já ao ler dele o livro Terceira Sede e recentemente a Biografia de Uma Árvore, sobre o qual ora me reporto.
Todo o livro dá a impressão de se estar ante à plástica do belo. O novo é tanto que versos isolados do poema onde habitam, irradiam sozinhos, num pacto obsessivo com o estranhamento ou “ordem sacrificada”.
Os sinais de um canto “no limite do impossível” podem ser conferidos nestes versos, entre muitos de mesma força e singularidade no livro:

A culpa fermenta a salvação.
O joio sabe mais do trigo que o pão.
...
Vivo do passado
como quem amou o suficiente.
Adiantei-me de amores
e depois fiquei a esperá-los
sem ter o que fazer.
...
Assisti à covardia crescer, aquietado no fundo da sala.
Durante anos, contive o veludo áspero da pata,
a soleira da pata, a vogal da pata.
Preparei a vingança pelas palavras.

Os fragmentos citados certificam o caminho escolhido pela poética de Carpinejar. Por via dele, o artista pretende acordar os silêncios de sempre, com precisão e inquietante absurdidade.
Sua arte compassa com as aves que, pretendendo a perfeição do vôo, escolhem os desafios sobre falésias.
O autor parece procurar a poesia de ninguém, só encontrada na mais subida andaimaria, onde está a desumanização do que ele cria. Nesse sentido opina Ortega y Gasset:
“Não se trata de pintar algo que seja completamente distinto de um homem, ou casa, ou montanha, mas sim de pintar um homem que pareça o menos possível com um homem, uma casa que conserve de tal o estritamente necessário para que assistamos à sua metamorfose, um cone que saiu milagrosamente do que era antes uma montanha, como a serpente sai de sua pele.”

Fico à vontade para dizer de Carpinejar um excelente autor de poesia, principalmente porque sequer o conheço. É como se estivesse a escrever sobre Donne, Dante ou Yeats, distantes, indiferentes e desfeitos em terra, pela usina da terra.
Ocorreu-me a leitura do seu livro, com dedicatória do romancista Fernando Monteiro, logo após conversar com este sobre a escassez de boa poesia no atual contexto.
Na ocasião, Monteiro (escritor viajadíssimo) convenceu-me de nenhuma retração da melhor poesia, apontando exemplos de estar ela em livros e mentes de poetas fundamentais e de muita atuação. Agora, com um trânsito inversamente proporcional ao crescimento considerável de textos poéticos ruins, chancelados por troféus que geralmente não retinem.
Novíssimo Testamento, poema final de Biografia de Uma Árvore, é a consagração de acentuada dose de virtuosismo metafórico, preponderante no livro. O olhar, é sabido, por mais que a beleza o encante, necessita de repouso, a fim de poder operar o trabalho da inteligência. Com vida e labuta, o autor haverá de pensar nisso.
Diria ainda: as dissonâncias modernas de sua linguagem, com tensão e fuga do real, precisam voar sem medida, numa poesia magra de hábitos, única e prestes a desligar-se de naturais e dispensáveis influências.
A Biografia de Carpinejar, autorizada pelos pássaros, raízes e frutos, é emblemática do homem triste, ajoelhado por ordem de Deus.
São prescindíveis palavras de louvor ou crítica a seu livro, realizado no presente, para trilhar o futuro, sob a advertência do autor: A disciplina é dos mortos./ Vivo desorganizando./ Para que transcender ?/ O divino em nós tarda em se humanizar./
Portentoso em sua expressão criadora, o livro Biografia de Uma Árvore exige reflexão corajosa sobre a “função fabuladora” da poesia, ou seja, dar resposta consistente quanto à sua indestrutível continuidade, às regras atuais de alienação, praticidade e indiferente consumo. Anima, finalmente, para lembrar Shelley (Percey Bisshe Shelley, (Defesa da Poesia), ao dizer de poetas inteiros como Carpinejar - Trombetas que chamam à batalha e não sentem o que inspiram. [...] Os legisladores desconhecidos do mundo -.

Quantas foram as miudezas que não combinavam
com o conjunto e, na falta de harmonia,
abandonei no depósito da infância?

E se faltou confiança para restaurá-las ao convívio,
faltou coragem para excluí-las em definitivo.

Somos o desperdício do que estocamos.
Não aprendemos a desaprender.
Não doamos nada, nem a palavra passamos adiante.
De um outro livro do autor, pensei repentinamente estes versos, certamente pelo instigante e insólito de sua construção. Posso admitir encontrar-se aí uma explicação mínima da mencionada função fabuladora da arte poética, pela qual se encandeiam e influenciam os poetas, da antigüidade ao medievo, até a modernidade, como ensina E. R. Curtius. Mas isso é outra história.


Publicado no Diário de Pernambuco em 11 de fevereiro de 2003.