Poucos homens de gênio terão deixado de pensar na influência que sua obra exerceria sobre pósteros. Exceção é feita ao poeta Samuel Taylor Coleridge, nascido no século XVIII, a 21 de outubro de 1772, no condado de Devon, Inglaterra.
Autor de obra poética resumida e intervalada, ele próprio não acreditava ser um verdadeiro poeta, capaz de acender nos outros o fogo seminal da criação. Isso será verdade, na medida em que se confirma haver ele pensado mais na prosa, como veículo de comunicação, ao dedicar-se à ensaística, com predominância temática voltada para a literatura e a interpretação filosófica.
A poesia de Coleridge, um dos primeiros poetas românticos ingleses, está basicamente representada pelos poemas A Balada do Velho Marinheiro, Christabel e Kubla Khan, retirados de uma atmosfera de mistério e sobrenaturalidade. Aí residem as diferenças entre ele e seu bom amigo William Wordsworth, com quem fez parceria na criação das Baladas Líricas, cabendo ao primeiro dar à obra o tom fantástico, e ao segundo, preso à natureza, conferir-lhe a palpitação mais íntima das coisas comungadas com o rés e o cotidiano.
“É meia noite no relógio do Castelo. / [...] Algo suspira bem perto dali, bem perto, / Mas ela não pode dizer o que seja - / Parece estar do outro lado, / Do gigantesco, frondoso e idoso carvalho. / Fria é a noite, e nua a floresta; / Será o vento quem geme tão triste? O fragmento integra o poema Christabel, nome da filha de Geraldine. Esta, falecida, visitará a filha na erma floresta, a duzentos passos da porta do castelo. É predominante em todo o poema a sonoridade, a cadência do verso hexâmetro e o fantasmagórico. Tais recursos são também encontrados em Annabel Lee e O Corvo, dois famosos poemas de Edgar Allan Poe.
Igual ambiência anímica vai se experimentar em A Balada do Velho Marinheiro e em Kubla Khan. Na Balada, por exemplo, um albatroz é vingado por sua morte, provocada pelo ancião marinheiro e a tripulação do navio em que viajam. É possível que tenha este albatroz fermentado as idéias de Charles Baudelaire na criação do poema de mesmo nome, onde a ave é judiada por uma tripulação marinha.
Ainda que disperso e despretensioso, a influência de Coleridge alcança também a poesia de John Keats, George G. Byron e Shelley, segundo alguns de seus biógrafos. Não é demais supor que o mestre Machado de Assis tenha encontrado na mesma fonte coleridgeana, a centelha inicial de fazer um morto escrever “memórias”.
Os sofrimentos físicos e morais são responsáveis pelos demorados intervalos de tempo em que Coleridge nada produziu. Apanhado por uma febre reumática, precisou tomar uma mistura de ópio e álcool, para a diminuição de seus padecimentos. Daí em diante, nunca mais se libertou do vício. Nesses instantes de estertor físico e mental, nasceu o poema Dores do Sono, no qual confessa: “E assim duas noites: e a melancolia / Com seu torpor contaminava o dia. / O sono, larga bênção, era então / A desgraça pior da disfunção. / Dei, na terceira noite, horrendo grito / Que me acordou desse íncubo maldito, / E, em estranha e cruel desesperança, / chorei como se fosse uma criança”.
Como já afirmado, é notória a presença de Coleridge no tempo de sua existência, principalmente pelas conferências por ele pronunciadas (entre elas, as dirigidas à obra de Shakespeare), e o destaque atribuído à sua Biografia Literária, dividida em capítulos, para abordar com plenos assuntos de estética e filosofia. Sobre estes últimos há registros de interpretação ousada, além de acréscimos ao pensamento dos filósofos Emmanuel Kant e Sheeelling, gerando controvérsias e ataques ao poeta. O presente texto poderá despertar algum interesse nos que fazem literatura domínio. E motivou escrevê-lo a nossa incansável procura, de quase nenhum sucesso, em bibliotecas e livrarias, a fim de encontrar o que fosse da obra deste poeta e crítico literário. O conhecimento do trabalho criador de Coleridge foi marcante nos cânones da modernidade literária, impondo-se certamente aos poetas e escritores de hoje e de sempre. . Motivou ainda pensar este mínimo enfoque sobre a vida e a obra do autor, a leitura proveitosa dos livros Teorias Poéticas do Romantismo, com tradução, seleção e nota de Luíza Lobo, S. T. Coleridge – Poemas e Excertos da Biografia Literária, de Paulo Vizioli e Vidas de Grandes Poetas, de Henry Thomas e Dana Thomas. Sem consciência disso, Samuel Taylor Coleridge foi mesmo a lição de muitos. Ele preparou o adeus ao medievo, autorizando à palavra desbatinizar-se e dar cambalhotas, rumo a uma nova beleza, a uma nova estética nas letras.
Publicado no Diário de Pernambuco em 28 de outubro de 2004.
quinta-feira, 28 de outubro de 2004
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