Comentar obras literárias é mais uma alegria para nós, na medida em que chamam a atenção, ou conseguem maravilhar nosso projeto estético, independentemente do tempo cronológico de sua criação. Assim, podemos estar à vontade para falar da poesia de um autor que não precisa de reconhecimentos tardios, mesmo porque já dispõe de lugar garantido sob as vigas do eterno.
Cesário Verde, poeta português de existência meteórica, é a quem estamos nos referindo. Viveu apenas 31 anos, a partir de 1855, quase sem sair do lugar lusitano Linda-a-Pastora, um nome encantador.
Poderão alguns apontar como sem nenhum risco, avaliar livro cuja permanência está assegurada por mais de século. Lembramos a estes: não ambicionando espaço na crítica literária, permitimo-nos falar apenas de obra que instigue nosso interesse.
Nestas notas, por exemplo, nossa intenção é apontar alguns dos grandes momentos da poesia mágica e prosaica desse autor, ignorado enquanto vivo, porém capaz de causar espanto e indicar caminhos a um póstero seu, Fernando Pessoa.
Cesário era filho de pai voltado para negócios, e neles o vate se envolveu de sol a sol, excetuando-se por isso à bestial regra de que poeta vive de e nas nuvens.
Talvez pela intensa labuta, talvez por opção, não participou de capelas literárias. Deve aí estar a indiferença do seu tempo à obra do autor, contra a qual não falaram bem Teófilo Braga e Ramalho Ortigão, pontífices das letras de Portugal dos oitocentos. O alheamento de contemporâneos à poesia de Cesário, pode ter explicação na sua estranha dicção, oposta à tradição, não vocacionada a infortunar o cânone estabelecido, para dar vez à grita dos contrários à imobilidade da arte.
Cesário muito ousou em sua poética, quantitativamente diminuta e excessivamente realista e por isso foi olhado com restrição pelos padrões ou arquétipos da época.
No mesmo tempo de sua existência e em lugares distintos, amargaram igual estrangeirismo Charles Beaudelaire, Isidore Ducasse (o Lautréamont), Arthur Rimbaud e Sousândrade, para só registrar alguns nomes.
Única obra do poeta, editada depois de sua morte, aos 31 anos de idade, O Livro de Cesário Verde, indiferente ao etéreo, preferiu focar a cena de rua, quando o suor goteja, como nestes versos, já trilhando as pegadas do surreal: "Num trem de praça arengam dois dentistas; / Um trôpego arlequim braceja numas andas; / Os querubins do lar flutuam nas varandas; / Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas."
Favorável ao movimento de intelectuais portugueses, conhecido como A Questão Coimbrã, Cesário negou-se ao romantismo de pacto com o ornamental e sublime. Preferiu a escola realista, para ver o homem como protagonista de um tempo de agonias e desigualdades sociais, numa poesia de denúncia, mas sem afetação panfletária.
Dirigindo-se ao povo, no fragmento adiante, ele consegue inquietar a ordem e pintar através de palavras, como os que utilizam geniais pincéis: "No pano cru rasgado das camisas / Uma bandeira penso que transluz! / Com ela sofres, bebes, agonizas; / Listões de vinho lançam-lhe divisas, / E os suspensórios traçam-lhe uma cruz!"
Quase sempre preferiu o verso medido, decassílabo ou alexandrino, mas revestido de rimas e motivos incomuns, a ponto de parecer ridículo à conduta de então e ao vigente arremedo clássico.
Até diante da musa, o falar de Cesário é insólito, domando excessos do coração - queda e perdição de muitos. "Aquela cujo amor me causa alguma pena / Põe o chapéu ao lado, abre o cabelo à banda, / E com a forte voz cantada com que ordena / Lembra-me, de manhã, quando nas praias anda, / Por entre o campo e o mar, bucólica, morena, / Uma pastora audaz da religiosa Irlanda."
Dá para notar nessa amostragem, que o poeta procura parceria com o futuro, a poesia moderna, também ensaiada pelos autores mencionados, quase todos seus desconhecidos, entrincheirados em anônima rebelião da palavra. Eles estão voltados para os meios anormais de expressão poética (o esplendor da mentira), buscados na "ordem sacrificada, na repentinidade brutal, na poesia despoetizada, no assalto inesperado", como alude o teórico Hugo Friedrich, em seu Estrutura da Lírica Moderna.
Não sem motivos, Cesário influenciou poetas de língua portuguesa, pré-modernos e modernos, a exemplo de Augusto dos Anjos, Fernando Pessoa e Vinícius.
O poema científico de Augusto, ao invés de afastá-lo da massa de leitores, beneficiou-se de um vocabulário coloquial, como a dizer intimamente. Tal vocabulário foi localizado em Cesário, para capacitar o poeta do EU em fazer cativo de sua poesia o público mais comum. Durante décadas e décadas, já se ouviu na voz do povo a confissão de Augusto: "Ah, um urubu pousou na minha sorte! / Também, das diatomáceas da lagoa / A criptógama cápsula se esbroa / Ao contato de bronca destra forte!"
Sem arroubos científicos, mas na mesma e confessional fala, Cesário ensaia: "Eu hei de lhe falar lugubremente / Do meu amor enorme e massacrado. / Falar-lhe com a luz e a fé do crente."
Uma outra característica da poesia de Augusto dos Anjos é o uso de palavras no superlativo: "Tome, Doutor, esta tesoura, e ... corte / Minha singularíssima pessoa."
Muitas vezes a lírica verdiana recorre à semelhante ênfase, numa prova de sua presença na criação do poeta paraibano: [...] "E nas águas mansíssimas do lago." [...] "Nas tuas formosíssimas madeixas." [...] "E tristíssima Helena, com verdade," etc.
Vinícius de Moraes no poema A Hora Íntima, resolveu intertextualizar Cesário: "Quem pagará o enterro e as flores / Se eu me morrer de amores?" No mesmo clima, lê-se de Cesário Verde, em Flores Velhas: "E quando me envolveu a noite, noite fria, / Eu trouxe do jardim duas saudades roxas / E vim a meditar em quem me cerraria, / Depois de eu me morrer, as pálpebras já frouxas."
A ensaística e a poesia de Fernando Pessoa cintilam em amor, influência e respeito ao poeta que o antecedeu. Contemplativo diz Cesário: "Nas nossas ruas, ao anoitecer, / Há tal soturnidade, há tal melancolia, / Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia / Despertam-me um desejo absurdo de sofrer." Em igual tonalidade, Pessoa lamenta: "Cada rua é um canal de uma veneza de tédios / E que misterioso o fundo unânime das ruas, / Das ruas ao cair da noite, ó Cesário Verde, ó Mestre, / Ó do " Sentimento de um Ocidental!"
Autor de único livro, Cesário Verde padeceu o silêncio de coetâneos, quando escreveu sua poesia, com visíveis marcas na obra vindoura de autores da sua magnitude. Dele eu diria - teve uma vida voada, a fazer dos olhos portas do céu e enxergar nos gigantes miniaturas do não.
Sem alvoroço, o autor lusitano faz lembrar escritores compulsivos e de muitas obras, que no presente, catando gota de apressada glória, esquecem de fortalecê-las para o futuro, quando estiverem sozinhas.
Publicado no Diário de Pernambuco em 04 de dezembro de 2003.