Nunca foi tão indispensável a presença do poeta no cenário do mundo, para o restauro da luz perante quase absoluta cegueira. Na dinâmica dos fatos atuais, ele precisa estar acima dos clamores, a fim de indicar saídas, através de sua força visionária e atemporal.
É uma constatação, no momento: não há mais como se defender vanguardas ou arquétipos (padrões) literários. Entretanto, o autor de poesia, inserido num ar planetário de inclinação falaz, necessita contagiar as multidões de uma nova esperança. E somente o conseguirá, desvencilhando-se ele próprio de ambições menores. Consequentemente será voz de um revigorado propósito em favor da arte poética. Por via desta, indicará o caminho do respeito pelo homem perdido, ou partido – expressão de Eliot. E estará insone, a fim de negar-se às paixões falsas; contra a depredação moral, religiosa, estética e mercadológica, a crescerem sem remédio, disseminando miséria e breu.
Assim posicionado, o poeta terá se transformado em pássaro, escafandrista ou guerreiro do chão, atento e prevenido, no seu ofício de muitos riscos, ante o predomínio da verdade (só) de alguns. A candeia e sabres dessa luta aguçarão seu poder inventivo, contrário ao roubo de mentes e bens, à mediocridade e usurpação, transformadas em norma nos dias que correm.
Horácio, poeta latino do século I a.C., em sua Arte Poética já aconselhava o que se usará neste texto de nenhuma pretensão: “Sê breve, para que rapidamente aprendam e decorem as tuas lições - os ânimos fiéis de quem te ouve”. Sobretudo por isso, chega-se ao final deste discurso. Jamais ele se proporia um Tratado do Sublime, mas quer lembrá-los, caros poetas: a mimese de lá fora; a realidade que ora se enxerga e respira não cabe imitar. Pelo contrário, deveremos recriá-la, em proveito de vidas, com firme oposição aos que encimam estátuas, na gerência do horror em nome da liberdade.
Eis o poema deste autor, integrante do livro Ardentias, ainda sem editor. Denominado Liberdade, ele é fruto da imaginação, claro, nas exéquias do pior dos Bush: “Para os que mentem / És a última incandescência / Da cor / No melhor ouro. / Para alguns ainda / A eternidade, / Ou, de horas renhidas / - Metrôs pontuais. / No entanto / - Fastio que depura - / Só a mim permites / A voz da edificação / De tua completa intimidade, / Como falésia e silêncios / Em rumorejo / Pelos despenhadeiros”.Em vista dos fatos históricos mais recentes, alentados no medo, uma última reflexão: deve o verdadeiro poeta, com tenacidade e sem ranço panfletário, dar as costas à sedução do ornamento, e retomar a sua presença útil na Terra, como “antena da raça”.
Publicado no Diário de Pernambuco, em 25 de agosto de 2006.