O título acima corresponde à nominação do recente livro de minha autoria, publicado pela Editora 7letras, que se faz acompanhar de nota do autor em cujo início se lê: “Crocodilos sempre existiram em quaisquer épocas, como está nas últimas nove linhas de “Sem Paraíso”, poema da página 91. Pensei nestas feras relendo o piramidal Dante Alighieri, ou melhor – A Divina Comédia”. (...)
A partir deste informe, é possível a conclusão: a literatura que realizo através de poemas, se opõe inteiramente ao clichê usado às vezes por alguns, de que escrevo para não ser entendido por muitos.
O beijo metafórico do livro, procura valer-se do incomum, para assim surpreender. A declaração destas palavras pode estar compreendida na sabedoria frásica do poeta Aleixandre, um consagrado autor do passado século XX: “Só a poesia sabe que o vento se chama uma vez lábios e, outra vez, areia’’.
O beijo é enviado a crocodilos, como os gizados no poema supra, ou seja, sicários e covardes, além de outros seres humanos de má índole. Estes, certamente, continuariam inquietando Dante, que há séculos programou inferno, purgatório e paraíso, onde colocar os maus e os menos ruins, conforme o merecimento.
O livro também é dedicado a vultos de grandeza como Woody Allen, Drummond de Andrade, Fernando Monteiro, Chico Buarque, e outros. Assim, desfaz possíveis interpretações hostis, o que é buscado, inclusive, no conteúdo reflexivo e cerimonial do primeiro poema - “O episódio do destino: / Se o coração reflete, / Alma está de luto”.
Se às vezes pareço hermético ou abstrato em minha expressão poética, é porque a engenharia da linguagem está sempre a exigir-me releituras e conselhos originários da escrita de estetas e teóricos literários lembrados em todos os tempos.
Por isso, em meus livros (poucos), e neste último em particular, a finitude expressional não interessa. Daí a luta: valorizar o assimétrico, contra prosaísmos poéticos inúteis, que podem ser o equívoco de muitos na atualidade.
Defendo mesmo a poesia contrária às convicções do “tudo pode”. Meus experimentos não aceitam o que rola aí fora, onde se escrevem versos parelhados com “a gota de nada que falta ao mar”. Há exceção, admite-se. E nela se reúnem os partidários de verdadeira literatura, alcançados, creio, pela observação do romancista Josué Montello, ao aconselhar “a palavra é o escritor vivo na eternidade”.
Apresentado por Wilson Araújo de Souza e Jomard Muniz de Britto, com orelhas de Pedro Ernesto, Um Beijo Para os Crocodilos vem a ser o resumo do mundo, hoje e sempre. E pode estar próximo do que fez o cineasta Sílvio Tendler no belo e singular documentário “Utopia e Barbárie”, um apanhado histórico da existência na terra, pobre terra - a respirar desilusões e tanto horror.
Enfim, sei da indiferença e riscos enfrentados por minha não extensa e resoluta obra literária, orientada por discrição e vigilante rigor. Mas, a perambular ante as ordens e pacto do consumo e fama triviais de agora, escolho as posições estéticas que me dão certeza e alegria de poder continuar.