quarta-feira, 1 de abril de 2020

CAMINHO ÁSPERO

O título acima parelha-se com o último poema do livro de Severino Filgueira, publicado em 2019 pela Companhia Editora de Pernambuco - CEPE. Prepondera no volume poemas recorrentes ao padrão “soneto”, ou seja, dois quartetos e dois tercetos, rimados na forma tradicional. A metrificação decai um pouco. Há versos de doze, onze, dez, nove e sete sílabas. Contudo, não há queda musical em todos e cada um dos 148 poemas. Por isso, o trabalho do autor satisfaz às exigências de qualquer ouvido, clássico ou moderno. Já prefaciei Severino em outro livro - “Qualquer Um”, declarando ser ele um poeta difícil. O mesmo acontece com esta obra. Filgueira incursiona em poesia, valendo-se do atemporal, metafórico, imagístico e surreal. A fieira de poemas do seu novo livro faz lembrar a expressão vérsica de um Salvatore Quasímodo: “Como na água / se alargam / os anéis da memória / meu coração / desprende-se de um ponto e logo morre: / assim, de ti é irmã água morta”. Em poesia, Filgueira destina-se e defende: romper com o banal, sendo capaz de dissonâncias como as inventadas por Rimbaud. No seu livro, o escritor confessa “agora mesmo pretendo a dor vaga / de não saber o que é necessário / para sobreviver com estranha chaga”. A poética de SF exige dele, sempre, fugir de realidades para, dessa forma, alcançar a eficiência. No poder de sua estética, a metáfora “parece um instrumento de criação que Deus deixou esquecido dentro de uma de suas criaturas na hora de fazê-la” (José Ortega y Gasset). Afinal, ler o livro aqui focado será proveitoso, creio, mesmo porque nos dias que correm, o banal em arte vem quase que assumindo tronos de perpetuidade. Então, o estranhamento defendido por Severino Filgueira, leva-o a mistérios próprios da poesia que motivadamente deve permanecer, conforme pensa este criador.

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